01 Fevereiro 2010
Poema de Helena Schopenhauer B.
"Passei a noite vertendo a luz negra no oceano à beira da minha janela
arranha-céus afogados
olhos de âncora
você me dizia ser tudo o que eu queria
carregando uma bandeira azul
sobre um cavalo de oito patas
agarrei-me às suas costas como a borboleta a um tigre e
esperei a tempestade passar
quando voltou o sol
nasceram asas mercuriais em meus tornozelos"
(as " são da própria Helena)
(from http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk)
12 Dezembro 2009
07 Outubro 2009
DECISÃO
Não guardarei mais os poemas no baú
recitarei nas praças e botequins.
Todos saberão que fui poeta às escondidas.
recitarei nas praças e botequins.
Todos saberão que fui poeta às escondidas.
11 Setembro 2009

ARREBENTAÇÃO
A noite avança sem pedir licença
absoluta
sem dizer a que veio.
A noite é lugar oculto
para a voz
para o sono
para o obscuro
pensar.
A noite estende o pano negro
da melancolia disfarçada e inútil
estado de voraz decifração do nada.
A noite aponta o que longe não se vê
dedos de névoa
escafandro
limite
paraíso de segredos
senhora dos desejos
“breu do ciúme”
cais despedaçado.
Noite!
Nenhuma água te lava.
A noite avança sem pedir licença
absoluta
sem dizer a que veio.
A noite é lugar oculto
para a voz
para o sono
para o obscuro
pensar.
A noite estende o pano negro
da melancolia disfarçada e inútil
estado de voraz decifração do nada.
A noite aponta o que longe não se vê
dedos de névoa
escafandro
limite
paraíso de segredos
senhora dos desejos
“breu do ciúme”
cais despedaçado.
Noite!
Nenhuma água te lava.
(Aurora da Graça, 2009)
AURORA
http://www.copacabanadetoledo.blogger.com.br/
A claridade nos açoita
homônima de mim
aurora
esplendor da manhã
vem do fundo do breu
como de seu avesso
entranhado na cúpula
da noite.
homônima de mim
aurora
esplendor da manhã
vem do fundo do breu
como de seu avesso
entranhado na cúpula
da noite.
(Aurora da Graça, 2009)
02 Setembro 2009
Um poema
O poema de Helena S.
A palavra morta
me cai da boca
que outrora viva
o pensamento
na palavra estreita.
Finge a alma
não tenho mais os dias que vivi
sem razão
sem desrazão
cresci de palavras
só
o mundo vigiava
as voltas
do meu tormento.
Conto as gotas
como dias que hei de beber
sem água
nada me devolve a visão
que um dia me lavou o rosto
fazendo-me acordar e mais nada.
28 Janeiro 2009

(foto de CoraRonai)
AS MANHÃS
Gosto das manhãs sem orvalho
das manhãs despudoradas
lugar do sol inteiro nas esquinas
gosto das ruas desertas
caminho para olhos fechados
e a brisa como guia
gosto do rumor do mar
vai e vem incontrolado das marés
gosto das telhas muito antigas
dos telhados da cidade coroada
onde nasci
gosto de mim enquanto aurora
enquanto o dia não encontra a noite
e o que a escurece.
das manhãs despudoradas
lugar do sol inteiro nas esquinas
gosto das ruas desertas
caminho para olhos fechados
e a brisa como guia
gosto do rumor do mar
vai e vem incontrolado das marés
gosto das telhas muito antigas
dos telhados da cidade coroada
onde nasci
gosto de mim enquanto aurora
enquanto o dia não encontra a noite
e o que a escurece.
21 Dezembro 2008
16 Setembro 2008
FUGA
A notícia se espalhou pelas esquinas.
Sobre meu paradeiro, nenhum vestígio
homens e mulheres saíram à procura
do meu corpo enfraquecido
meu espírito sonâmbulo
é guia imaginário na rota do desespero
tenho feridas nos pés
e o coração tropeçado em si mesmo
se o corpo buscar o chão
(tapete de pedras pontiagudas
tal leito de faquir em seu martírio)
resistirei
alçada nas fímbrias do sonho que me alimenta
e protege
o sonho de encontrar um lugar onde ninguém possa chegar
o lago de águas luzidias e mornas
perto das montanhas
as mulheres e os homens desistirão da busca
quando perceberem que de mim só ficou o contorno iluminado
(bruxuleante ) a se extinguir pelos caminhos.
(AuGraca, jul. 22)
A notícia se espalhou pelas esquinas.
Sobre meu paradeiro, nenhum vestígio
homens e mulheres saíram à procura
do meu corpo enfraquecido
meu espírito sonâmbulo
é guia imaginário na rota do desespero
tenho feridas nos pés
e o coração tropeçado em si mesmo
se o corpo buscar o chão
(tapete de pedras pontiagudas
tal leito de faquir em seu martírio)
resistirei
alçada nas fímbrias do sonho que me alimenta
e protege
o sonho de encontrar um lugar onde ninguém possa chegar
o lago de águas luzidias e mornas
perto das montanhas
as mulheres e os homens desistirão da busca
quando perceberem que de mim só ficou o contorno iluminado
(bruxuleante ) a se extinguir pelos caminhos.
(AuGraca, jul. 22)
RECLUSÃO
20 Julho 2008
PARTILHA
Em um lugar pequeno
guardaria se coubesse
a brisa
o milagre
e as palavras
em outro lugar menor ainda
esconderia o brilho dos olhos
farol ou lamparina
na caixa de marfim
libertaria o riso
nas mãos pequenas
sem maciez
o gesto inconsistente
diria adeus.
(Aurora da Graça, 2008)
Em um lugar pequeno
guardaria se coubesse
a brisa
o milagre
e as palavras
em outro lugar menor ainda
esconderia o brilho dos olhos
farol ou lamparina
na caixa de marfim
libertaria o riso
nas mãos pequenas
sem maciez
o gesto inconsistente
diria adeus.
(Aurora da Graça, 2008)
15 Julho 2008
(desenho de Fernando Chuí)
NÃO TER
Quisera não ter penas
meu riso se espalharia
quisera não ter pernas
usaria minhas asas
quisera não ter mãos
o poema se calaria
quisera não ter olhos
o escuro seria imagem
quisera não ter alma
seria irmã do robô
quisera não ter febre
fosse brasa camuflada
quisera não ser estilhaço
que a palavra fere e cala.
Quisera não ter penas
meu riso se espalharia
quisera não ter pernas
usaria minhas asas
quisera não ter mãos
o poema se calaria
quisera não ter olhos
o escuro seria imagem
quisera não ter alma
seria irmã do robô
quisera não ter febre
fosse brasa camuflada
quisera não ser estilhaço
que a palavra fere e cala.
10 Julho 2008

(gravura de Marcia Tiburi)
RASTRO DE LUZ
A rosa emerge solitária da sombra
vem coberta com véu de giz
sua máscara inventada
é caule e corpo do que afaga
e contradiz
alguma luz de rastro
exige permanência
adia o escuro.
A rosa emerge solitária da sombra
vem coberta com véu de giz
sua máscara inventada
é caule e corpo do que afaga
e contradiz
alguma luz de rastro
exige permanência
adia o escuro.
26 Maio 2008
Eram frestas
o que se podia ver
o que estava por dentro era adivinhado
como se imagina o dia que ainda vem.
(AuGraca, maio, 20)
SÃO VICENTE DE MINAS
DÍVIDA DE PÃO
A mulher veio primeiro
cabelos mais brancos que neve
pés expostos ao frio
o homem negro
sob chapéu de abas largas
cinza de cor seu paletó
pede poucos pães
o rapaz adentra
quer café quente e açúcar
cabelos negros de moldura
para sua face
bela
entram outras mulheres
com suas vestes rancheiras
aprumadas sob o frio de Minas
escolhem leite frio
sobre o balcão o caderno de notas
crediário
para os que alongam sua dívida de pão.
(AuGraca, SVMinas, maio, 25)
RIO DE JANEIRO
O SILÊNCIO DA CIDADE
O Corpo de Cristo (no calendário)
esvazia a cidade
andar por ela é olhar o tempo de um século que já não é
a cidade e seus portais de marfim e alabastro
pedras de cantaria
a cidade vive o tempo esgotado nas moradias antigas
pedra de lioz e calmaria
exulta o silêncio do vazio visível nos caminhos de sol e sombra
na paz quase absurda que a envolve
a cidade está livre entre o mar e a montanha
fulgurada nos vitrais de suas igrejas
permanece alheia aos apelos do mar que a banha
entrega-se aos passantes retalhados de desejos
vida simples e outra fome
a cidade se apodera da manhã
prescinde dos tempos vesperais e vive
como a eterna debutante da aurora
no silêncio que o Corpo de Cristo testemunha
nas casas descoradas muito antigas
o silêncio sustenta suas vigas
galpões devassados pelo pó serragem e o que restou
trastes imprestáveis portões sem tranca ruas em curvas
e ruínas do que antes foi palácio
casas que abrigaram os que chegaram com o Rei
a cidade sob sol e silêncio afastou o vozerio
para lembrar sua longa história de festas e reinados
nos tempos deste século sonha desmemoriada
em seus cômodos cedidos ao comércio de apetrechos
vagar
pela cidade envergonhada de seus crimes
compungida de suas perdas se desnuda
vigiada pelo Corpo de Cristo exibido no calendário.
(AuGraca, Rio de Janeiro, maio, 22)
07 Março 2008
MARÇO!
SOL ANTECIPADO
Sobre as águas
um sol de maio antecipado
mergulha nas ondas (que a baía acolhe)
um faiscar quase inútil.
Ao largo e enfileirados
os navios
(habitantes costumeiros dessas águas)
mudam o leme
e não aportam na baía
navegam para a barra de outro porto
destino em cais reconstruído
na ponta da ilha.
RANHURAS DO AR
Na sala ampla
de poucos móveis
sou a mulher encostada no sofá
a que alonga seus braços sem tocar em nada
a mesma que se abstém de olhar as paredes
vê para dentro
pálpebras cerradas
punhos fechados no vazio
cavar nas ranhuras do ar
depois ...
aquietar-me
recolher-me
dormir
cercada das cores e desenhos
inquilinos das paredes.
LISTA DOS DESEJOS
Se a lista dos desejos perde a ordem
o fio de qualquer rotina nos salva
se encontramos a ponta.
A OUTRA COR
A cinza é o que pode vir
depois que o corpo amortalhado
perde a outra cor e o fogo rebelde
que a paixão exige
ilusão madrasta.
(Aurora da Graça, 2008)
Sobre as águas
um sol de maio antecipado
mergulha nas ondas (que a baía acolhe)
um faiscar quase inútil.
Ao largo e enfileirados
os navios
(habitantes costumeiros dessas águas)
mudam o leme
e não aportam na baía
navegam para a barra de outro porto
destino em cais reconstruído
na ponta da ilha.
RANHURAS DO AR
Na sala ampla
de poucos móveis
sou a mulher encostada no sofá
a que alonga seus braços sem tocar em nada
a mesma que se abstém de olhar as paredes
vê para dentro
pálpebras cerradas
punhos fechados no vazio
cavar nas ranhuras do ar
depois ...
aquietar-me
recolher-me
dormir
cercada das cores e desenhos
inquilinos das paredes.
LISTA DOS DESEJOS
Se a lista dos desejos perde a ordem
o fio de qualquer rotina nos salva
se encontramos a ponta.
A OUTRA COR
A cinza é o que pode vir
depois que o corpo amortalhado
perde a outra cor e o fogo rebelde
que a paixão exige
ilusão madrasta.
(Aurora da Graça, 2008)
02 Março 2008
A frase de Walter Benjamin que eu conheço é “o tédio é a ave de sonho que choca os ovos da imaginação”. (MT)
17 Fevereiro 2008
VORAGEMDe nada adiantará
conduzir meus passos para fora da voragem
mudar a direção
porque muitos são os destinados a atravessar o deserto
e eu
não tenho força nem determinação
posso sucumbir diante da ventania
não há controle
meus passos sulcam as areias e meus pés se afundam
a fuga de nada adiantará
a intenção escapa. Esbarro na luz obscena que o pecado oferece
é hora de saber os rumos da salvação.
conduzir meus passos para fora da voragem
mudar a direção
porque muitos são os destinados a atravessar o deserto
e eu
não tenho força nem determinação
posso sucumbir diante da ventania
não há controle
meus passos sulcam as areias e meus pés se afundam
a fuga de nada adiantará
a intenção escapa. Esbarro na luz obscena que o pecado oferece
é hora de saber os rumos da salvação.
(AuGraca, 2008)
ULTRA SONOGRAFIA
Na sala de exames
a mulher de branco me compara com a máquina
para dizer que a garganta é livre.
(AuGraca, 2008)
Na sala de exames
a mulher de branco me compara com a máquina
para dizer que a garganta é livre.
(AuGraca, 2008)
OUTRA PASSÁRGADA
Não desejo a Passárgada
que Manoel tanto proclama
eu só quero o clarão da lua
e a noite pela metade.
(AuGraca, 2008)
Não desejo a Passárgada
que Manoel tanto proclama
eu só quero o clarão da lua
e a noite pela metade.
(AuGraca, 2008)
16 Fevereiro 2008
DESALENTO
Vaguei ...Vaguei...
perdi a conta dos caminhos e das pontes
atravessei riachos
molhei-me em córregos
não vi peixes nem espelhos
venci as pedras e os escuros
a luz estava em outro lugar
meu olhar alcançou as encostas
escarpas verdes e vivas
e por lá nenhum traço que anunciasse
os rastros de tua presença
o tempo passou
caíram as folhas e a seiva, morta
mudou a paisagem
a procura inútil
o pensar perdeu-se nos versos
a palavra estandarte e guia
emudeceu
de real...a metamorfose
nós e nódoas nos pés
travas
desalinho
e um coração filtrado da amargura.
Vaguei ...Vaguei...
perdi a conta dos caminhos e das pontes
atravessei riachos
molhei-me em córregos
não vi peixes nem espelhos
venci as pedras e os escuros
a luz estava em outro lugar
meu olhar alcançou as encostas
escarpas verdes e vivas
e por lá nenhum traço que anunciasse
os rastros de tua presença
o tempo passou
caíram as folhas e a seiva, morta
mudou a paisagem
a procura inútil
o pensar perdeu-se nos versos
a palavra estandarte e guia
emudeceu
de real...a metamorfose
nós e nódoas nos pés
travas
desalinho
e um coração filtrado da amargura.
(AuGraca, 2008)
CHUVA! CHUVA!
(foto de Fernanda Guimarães Rosa)VÉU LÍQUIDO
Noite úmida
véu líquido
penetras na minha nudez e revelas o que é frágil e sem beleza
olho em mim
decido cobrir o que melindras com tua réstia de gelo
procuro em qualquer mala alforje ou gaveta
o que possa vestir-me
não quero vestidos nem casacos
tampouco uniformes ou trajes extravagantes
sem apuro
o que eu quero mesmo eu sei
encontrar qualquer trapo
para cobrir a nudez inesperada
a nudez que se despetala no tempo
a nudez que acoberta o segredo dos desejos
a nudez insensata dos desvalidos
cobrir a nudez
protegê-la da névoa e do frescor dos ventos
recolher o corpo à calmaria dos panos
noite úmida
véu líquido
cobrir a pele e esconder a nudez no pensamento
não dizer nada
não ver a nudez
não tocá-la
deixá-la ao léu
isentá-la
ignorar que a nudez mostra o corpo e esconde as entranhas
oculta o que medra entre os ossos
move a lucidez do encontro e reduz a incerteza
cobrir a nudez
seus calores e suas ânsias
toldar-lhe o viço
fechar seus poros
abrandar-lhe a fúria
cobrir a nudez
espaço da pele onde a ternura pode fazer morada
moldura ou armadura a esquivar-me das flechas envenenadas
portadoras do que pode matar ou salvar.
Noite úmida
véu líquido
penetras na minha nudez e revelas o que é frágil e sem beleza
olho em mim
decido cobrir o que melindras com tua réstia de gelo
procuro em qualquer mala alforje ou gaveta
o que possa vestir-me
não quero vestidos nem casacos
tampouco uniformes ou trajes extravagantes
sem apuro
o que eu quero mesmo eu sei
encontrar qualquer trapo
para cobrir a nudez inesperada
a nudez que se despetala no tempo
a nudez que acoberta o segredo dos desejos
a nudez insensata dos desvalidos
cobrir a nudez
protegê-la da névoa e do frescor dos ventos
recolher o corpo à calmaria dos panos
noite úmida
véu líquido
cobrir a pele e esconder a nudez no pensamento
não dizer nada
não ver a nudez
não tocá-la
deixá-la ao léu
isentá-la
ignorar que a nudez mostra o corpo e esconde as entranhas
oculta o que medra entre os ossos
move a lucidez do encontro e reduz a incerteza
cobrir a nudez
seus calores e suas ânsias
toldar-lhe o viço
fechar seus poros
abrandar-lhe a fúria
cobrir a nudez
espaço da pele onde a ternura pode fazer morada
moldura ou armadura a esquivar-me das flechas envenenadas
portadoras do que pode matar ou salvar.
(AuGraca, 2008)
MOTIVOS DAS TIAS MELANCÓLICAS
MELANCÓLICAS, AS TIAS
Para pouco servem as tias
os tios não
chegam sempre com alegria
e lançam seus galanteios
dão presentes
contam histórias
e bebem
as tias moram no tempo
seus desejos são poesia do que nem viveram
para alegrar o dia recorrem ao que lhes espia
se agacham na frente do baú de papéis
cartas antigas
cartões infantis
retratos frente ao espelho com o batom da mãe
fitas
convites de formatura
lembranças táteis pequenos objetos
roupinha da primeira caminhada
tudo o que as mães olvidaram
ou não lhes sobrou tempo para guardar
ou uma caixa um saco uma velha mala
falta sentimento nas mães? nada sei
as tias solfejam cantigas para filhos que não pariram
seus amores juvenis eram só literatura
não quiseram desdobrar-se
exibir o dna
falta de amor ou fuga para quem não precisasse compor-se
velhas tias arrematam o que sobra.
(AuGraca, jan. 2008)
Para pouco servem as tias
os tios não
chegam sempre com alegria
e lançam seus galanteios
dão presentes
contam histórias
e bebem
as tias moram no tempo
seus desejos são poesia do que nem viveram
para alegrar o dia recorrem ao que lhes espia
se agacham na frente do baú de papéis
cartas antigas
cartões infantis
retratos frente ao espelho com o batom da mãe
fitas
convites de formatura
lembranças táteis pequenos objetos
roupinha da primeira caminhada
tudo o que as mães olvidaram
ou não lhes sobrou tempo para guardar
ou uma caixa um saco uma velha mala
falta sentimento nas mães? nada sei
as tias solfejam cantigas para filhos que não pariram
seus amores juvenis eram só literatura
não quiseram desdobrar-se
exibir o dna
falta de amor ou fuga para quem não precisasse compor-se
velhas tias arrematam o que sobra.
(AuGraca, jan. 2008)
27 Novembro 2007
POEMAS NOVOS
(foto de Fernando Rezende))VILA DE SÃO LUÍS
Esta ilha que os franceses ocuparam
os portugueses riscaram o traçado
de uma vila com morada provisória
nos sobrados de mirantes e azulejos
tantos anos centenas se passaram
e resistentes os sobrados permanecem
enfrentando a ruína e a descrença
do mesmo povo que outrora se ufanava
das histórias de guerreiros e poetas
ninguém mais crê na beleza de outros tempos
porque hoje seu corpo é recoberto
de negra pele sobre as ruas onde antes
suas pedras brilhavam ensolaradas
ou na noite refletiam o sofrimento
dos poetas exilados em pedra cinzelada
como vigias de praças mal cuidadas
ruínas de sobrados seculares
ruas escuras umbrais de esconderijos
retrato do quanto se mostra destruída
na cidade antiga suas casas
ficaram relegadas ao passado
sua história atravessou pontes e ruas
e se instalou nas casas verticais
onde o povo se entrega aos novos tempos
onde as idéias e os poemas ficaram nas estantes
trocados por consumo tédio e farsa.
Esta ilha que os franceses ocuparam
os portugueses riscaram o traçado
de uma vila com morada provisória
nos sobrados de mirantes e azulejos
tantos anos centenas se passaram
e resistentes os sobrados permanecem
enfrentando a ruína e a descrença
do mesmo povo que outrora se ufanava
das histórias de guerreiros e poetas
ninguém mais crê na beleza de outros tempos
porque hoje seu corpo é recoberto
de negra pele sobre as ruas onde antes
suas pedras brilhavam ensolaradas
ou na noite refletiam o sofrimento
dos poetas exilados em pedra cinzelada
como vigias de praças mal cuidadas
ruínas de sobrados seculares
ruas escuras umbrais de esconderijos
retrato do quanto se mostra destruída
na cidade antiga suas casas
ficaram relegadas ao passado
sua história atravessou pontes e ruas
e se instalou nas casas verticais
onde o povo se entrega aos novos tempos
onde as idéias e os poemas ficaram nas estantes
trocados por consumo tédio e farsa.
IMAGENS DA TV
O que a tv nos mostra sem piedade
choca
apavora
e nos confunde
sinaliza um futuro que amedronta
disfarçado entre novelas e cantigas
nesta pátria de horrores e lamentos
forja em nós um sentimento que permite
viver entre a coragem ou o desatino
o que não tem desenho próprio
o que se transfigura e foge
ao que se vê
seja guerra
tristeza
ou abandono
prenúncio do porvir?
essa incógnita armadilha ou talvez encruzilhada
(uma nuvem que não se muda em chuva)
seremos nós as vítimas do medo
a cada passo e a cada cena
a cada pensamento ou imagem que nos mata
encurralados pelo horror e a violência
somos os humanos
vítimas da derrota que retalha e mortifica
a quem não olha mais atento
a luz ou o fosco desta vida
o que nos resta entender?
o quanto nos custará sobreviver nesta ilha de ilusões
e quantas lágrimas
quantos desejos oprimidos
quantas alegrias ficarão aprisionadas
no charco das senzalas brancas da agonia?
O que a tv nos mostra sem piedade
choca
apavora
e nos confunde
sinaliza um futuro que amedronta
disfarçado entre novelas e cantigas
nesta pátria de horrores e lamentos
forja em nós um sentimento que permite
viver entre a coragem ou o desatino
o que não tem desenho próprio
o que se transfigura e foge
ao que se vê
seja guerra
tristeza
ou abandono
prenúncio do porvir?
essa incógnita armadilha ou talvez encruzilhada
(uma nuvem que não se muda em chuva)
seremos nós as vítimas do medo
a cada passo e a cada cena
a cada pensamento ou imagem que nos mata
encurralados pelo horror e a violência
somos os humanos
vítimas da derrota que retalha e mortifica
a quem não olha mais atento
a luz ou o fosco desta vida
o que nos resta entender?
o quanto nos custará sobreviver nesta ilha de ilusões
e quantas lágrimas
quantos desejos oprimidos
quantas alegrias ficarão aprisionadas
no charco das senzalas brancas da agonia?
TAREFA DE ANJO
Se abrissem meu coração
com as facas cegas que não enxergam o sonho
mesmo assim
talvez descobrissem que nas veias encobertas
moram as palavras invisíveis que em segredo
relatam para si mesmas os delírios eloqüentes
cravados em cada sílaba - os delírios da felicidade!
se abrissem meu coração
com as facas afiadas que refilam o sonho
veriam pela fresta anunciada
o avesso a que chamamos esperança
e me veriam despojada dos andrajos
com minhas asas de anjo e as mãos abertas
marcadas dos sinais de todas as vitórias
depois de ter cavado nos escombros
das veias movediças que o coração abriga.
PRIVILÉGIO DA MUDEZ
A mudez é o inferno
o não adivinhar o alvo
o deixar que o não dizer se faça
se contraponha
ao delírio
de falar
palavras tem pressa
para incautos e desavisados
fogem da boca como lanças afiadas
para atacar ouvidos que não querem ouvir
o que é dito extrapola
causa pânico ou simplesmente dói
se propõe
se acalma
ou se ajuda
pode vir pela via torta
do sem limite ou cerca
palavras-punhais
retalham
ferem à traição
jogam-se como artefatos anônimos
atingem os desprovidos da sutileza
que emoldura a crueldade
atingem os sobreviventes
da lucidez ou do medo
ou da equivocada transparência
palavras ao vento
às vezes inconseqüentes
mal ditas
palavras sem a medida
exageram e afastam a verdade
o que não se diz
deveria ser a ordem
o que a boca fala
deveria ser o som do coração
e não a indelicadeza
o que se diz pode não vir da alma
o que não é dito sim
pode ser o sentido e a intuição
as palavras se desesperam
rompem o que trava a boca
descobrem a fenda salvadora
movem o que está oculto
erram os alvos ou cruzam a linha fatal
do que não deve ser dito
as palavras deveriam ser apenas escritas
e a boca muda.
FUGA DAS ÁGUAS
Foi-se outubro
com seus ventos e suas nuvens de chumbo
a chuva esperada escapa entre uma lufada e outra
essa água vertical é ausência
quando podia ser milagre
para as mangas os cajus as samambaias
e as pedras.
(AuGraca)
Se abrissem meu coração
com as facas cegas que não enxergam o sonho
mesmo assim
talvez descobrissem que nas veias encobertas
moram as palavras invisíveis que em segredo
relatam para si mesmas os delírios eloqüentes
cravados em cada sílaba - os delírios da felicidade!
se abrissem meu coração
com as facas afiadas que refilam o sonho
veriam pela fresta anunciada
o avesso a que chamamos esperança
e me veriam despojada dos andrajos
com minhas asas de anjo e as mãos abertas
marcadas dos sinais de todas as vitórias
depois de ter cavado nos escombros
das veias movediças que o coração abriga.
PRIVILÉGIO DA MUDEZ
A mudez é o inferno
o não adivinhar o alvo
o deixar que o não dizer se faça
se contraponha
ao delírio
de falar
palavras tem pressa
para incautos e desavisados
fogem da boca como lanças afiadas
para atacar ouvidos que não querem ouvir
o que é dito extrapola
causa pânico ou simplesmente dói
se propõe
se acalma
ou se ajuda
pode vir pela via torta
do sem limite ou cerca
palavras-punhais
retalham
ferem à traição
jogam-se como artefatos anônimos
atingem os desprovidos da sutileza
que emoldura a crueldade
atingem os sobreviventes
da lucidez ou do medo
ou da equivocada transparência
palavras ao vento
às vezes inconseqüentes
mal ditas
palavras sem a medida
exageram e afastam a verdade
o que não se diz
deveria ser a ordem
o que a boca fala
deveria ser o som do coração
e não a indelicadeza
o que se diz pode não vir da alma
o que não é dito sim
pode ser o sentido e a intuição
as palavras se desesperam
rompem o que trava a boca
descobrem a fenda salvadora
movem o que está oculto
erram os alvos ou cruzam a linha fatal
do que não deve ser dito
as palavras deveriam ser apenas escritas
e a boca muda.
FUGA DAS ÁGUAS
Foi-se outubro
com seus ventos e suas nuvens de chumbo
a chuva esperada escapa entre uma lufada e outra
essa água vertical é ausência
quando podia ser milagre
para as mangas os cajus as samambaias
e as pedras.
(AuGraca)
30 Outubro 2007
FRAGMENTOS
A MULHER DE COSTAS (Marcia Tiburi, 2006)
“ meu olhar reluz a pedra translúcida”
“ ...é aurora no tempo que me cativa, esse tempo fino que ele traz guardado entre as suas várias peles”
“a luminosidade da boca condensa em odes a tristeza, a sede e o silêncio”
“mastiga no lento o sagrado do dia”
“elas vinham perdurar o cansaço e empilhar o tempo ressequido”
“...e se entendiam entre os líquidos da vida”
“eu esperava a aurora com sua luz rósea”
“...o deserto não existiu sempre, que foi um resto da lágrima salgada que secou sobre as pedras”
“o grão de sua alma voa ao solavanco do vento”
“Sei que vê melhor com os pés no chão, são seus olhos rastejando.”
“a alma era um brinde que teria até a hora de sua morte.”
“É cedo na manhã que desaba.”
“Ela carrega a verdade como um fio de cabelo que ata os mundos.”
MAGNÓLIA (Marcia Tiburi, 2005)
“ não um choro de exatidão de lágrimas que escorrem, mas do recolhimento e do esgar vagaroso.”
“... mas deixou o fio intangível da meada.”
“o futuro é a libélula que esqueceu onde pôs os ovos.”
“A paisagem é o espírito do espaço.”
“...sobrou apenas o cheiro como uma lembrança avessa, destas atadas de silêncio;”
“O espírito da árvore está preso dentro da folha prensada sobre a qual se escreve e desenha;”
“A vida é a insônia eterna.”
“ meu olhar reluz a pedra translúcida”
“ ...é aurora no tempo que me cativa, esse tempo fino que ele traz guardado entre as suas várias peles”
“a luminosidade da boca condensa em odes a tristeza, a sede e o silêncio”
“mastiga no lento o sagrado do dia”
“elas vinham perdurar o cansaço e empilhar o tempo ressequido”
“...e se entendiam entre os líquidos da vida”
“eu esperava a aurora com sua luz rósea”
“...o deserto não existiu sempre, que foi um resto da lágrima salgada que secou sobre as pedras”
“o grão de sua alma voa ao solavanco do vento”
“Sei que vê melhor com os pés no chão, são seus olhos rastejando.”
“a alma era um brinde que teria até a hora de sua morte.”
“É cedo na manhã que desaba.”
“Ela carrega a verdade como um fio de cabelo que ata os mundos.”
MAGNÓLIA (Marcia Tiburi, 2005)
“ não um choro de exatidão de lágrimas que escorrem, mas do recolhimento e do esgar vagaroso.”
“... mas deixou o fio intangível da meada.”
“o futuro é a libélula que esqueceu onde pôs os ovos.”
“A paisagem é o espírito do espaço.”
“...sobrou apenas o cheiro como uma lembrança avessa, destas atadas de silêncio;”
“O espírito da árvore está preso dentro da folha prensada sobre a qual se escreve e desenha;”
“A vida é a insônia eterna.”
29 Outubro 2007
Helena Schopenhauer Borges
“Deixei sinais do meu asilo no seu corpoNossos olhos de antes entrelaçados
aves
hoje voam sem coragem
além do sempre onde fomos colocados,
eu, você e as cartas do impossível
nada que apague o amanhã
nada que apague o amanhã
em sonhos descorados
com que esperei-te um dia na janela
e minha casa era seu corpo
e suas mãos roubavam o meu tempo
agora é só o lamento da rima lassa
onde me lembro
o dó
e ainda que eu te beije,
não te vejo.”
(Helena Schopenhauer Borges)
29 Setembro 2007
[Desenho de Marcia Tiburi]ASAS PARTIDAS
Aurora da Graça
Meu corpo resiste
submerso na sombra do abandono
que teu olhar desatento me exilou
Meu corpo procura
o rumo das vertentes obscuras
para nelas reconstruir com seus destroços
os precários contornos da alma estilhaçada
Algo essencial está perdido
a medida do corpo
a lucidez e o travo
a máscara
os laços
a luz
Meu corpo perdido de si mesmo
vibra no silêncio a decadência
o aniquilamento
o vôo de pássaro ferido
asas partidas
ampulheta ao contrário
desejos vazados
milagre em vão.
13 Setembro 2007
A CRINA
Fernando Chuí
Cavalgo em teus escombros.
Na superfície, ruínas;
no fundo, uma paisagem.
Vejo ali um pulsar
muito maior do que a minha paz.
Dentro de mim, uma distância
que mergulha em tuas secas;
faz dos teus ruídos
minhas preces.
Não sei te montar;
só durmo agarrado a ti
para tragar pra dentro dos meus azuis
teus pesadelos.
Na superfície, eu te aperto;
no fundo, um espasmo.
Afago a crina de cinzas
e sopro meu nome sobre ela.
Sob a nuvem de pó que se levanta
um vermelho vivo se revela.
Sei que são brasas tuas bocas,
mas beijo-as mesmo assim.
Na superfície, me queimo;
no fundo, me protejo.
Pois tua miséria é um cavalo indomável,
sem dono, sem nome,
sem cabimento.
.
Na superfície, eu te necessito;
no fundo, eu te amo...
Fernando Chuí
Cavalgo em teus escombros.
Na superfície, ruínas;
no fundo, uma paisagem.
Vejo ali um pulsar
muito maior do que a minha paz.
Dentro de mim, uma distância
que mergulha em tuas secas;
faz dos teus ruídos
minhas preces.
Não sei te montar;
só durmo agarrado a ti
para tragar pra dentro dos meus azuis
teus pesadelos.
Na superfície, eu te aperto;
no fundo, um espasmo.
Afago a crina de cinzas
e sopro meu nome sobre ela.
Sob a nuvem de pó que se levanta
um vermelho vivo se revela.
Sei que são brasas tuas bocas,
mas beijo-as mesmo assim.
Na superfície, me queimo;
no fundo, me protejo.
Pois tua miséria é um cavalo indomável,
sem dono, sem nome,
sem cabimento.
.
Na superfície, eu te necessito;
no fundo, eu te amo...
29 Agosto 2007
OFÍCIO DE ESCREVER
Aurora, 1978, RJVATICINIOS DA NOITE
Enquanto os dias se sucedem
na rotina e seus avessos
atravesso a linha tênue do cansaço
sem alarde e sem começo.
Ao acaso percorro os arredores
das ruas sinuosas muito antigas
mostruário de azulejos e vitrais
cercadas de escadarias.
Por elas
o que resta de sol se confunde com a lua
espelho da fatal face da noite
nesse encontro temerário e sem partilha.
Contudo, dormes.
E enquanto todos se entregam
e sonham ou insones se rebelam
escavo nos vãos da madrugada
as palavras que dirão mais que o silêncio
aos teus ouvidos refratários
ao que não seja bom e belo.
Enquanto dormes
vagueio cega e amordaçada
sob os escombros de desejos assinados
estilhaços da espera inútil e sem costura.
Enquanto dormes
reforço meus passos trôpegos
e sigo
na incandescência do que me clareia
vazando a noite pelas escarpas do impossível
na insistente e interminável escolha do sentido
para vencer o assombro e as incertezas
e acreditar noutra memória do que foi vivido.
Então será fácil te dizer
que o amor leva suas grandes asas
para o tombadilho imaginário
onde o sal arquiteta seu pouso e sua medida
nos alicerces desiguais que o sonho medra.
Enquanto dormes
a noite, maior que sua própria escuridão
profunda inacessível inoportuna
recolherá os fragmentos de teus medos
te libertará dos destroços que a ilusão promove
e inundará com matizes de todos os luares
tua face pálida
portal de teus segredos insensatos
e assim, outros sóis oriundos do Oriente
(talvez da China do Japão ou Indonésia)
poderão compartilhar com as estrelas
o brilho visceral de teus olhos distraídos.
Enquanto os dias se sucedem
na rotina e seus avessos
atravesso a linha tênue do cansaço
sem alarde e sem começo.
Ao acaso percorro os arredores
das ruas sinuosas muito antigas
mostruário de azulejos e vitrais
cercadas de escadarias.
Por elas
o que resta de sol se confunde com a lua
espelho da fatal face da noite
nesse encontro temerário e sem partilha.
Contudo, dormes.
E enquanto todos se entregam
e sonham ou insones se rebelam
escavo nos vãos da madrugada
as palavras que dirão mais que o silêncio
aos teus ouvidos refratários
ao que não seja bom e belo.
Enquanto dormes
vagueio cega e amordaçada
sob os escombros de desejos assinados
estilhaços da espera inútil e sem costura.
Enquanto dormes
reforço meus passos trôpegos
e sigo
na incandescência do que me clareia
vazando a noite pelas escarpas do impossível
na insistente e interminável escolha do sentido
para vencer o assombro e as incertezas
e acreditar noutra memória do que foi vivido.
Então será fácil te dizer
que o amor leva suas grandes asas
para o tombadilho imaginário
onde o sal arquiteta seu pouso e sua medida
nos alicerces desiguais que o sonho medra.
Enquanto dormes
a noite, maior que sua própria escuridão
profunda inacessível inoportuna
recolherá os fragmentos de teus medos
te libertará dos destroços que a ilusão promove
e inundará com matizes de todos os luares
tua face pálida
portal de teus segredos insensatos
e assim, outros sóis oriundos do Oriente
(talvez da China do Japão ou Indonésia)
poderão compartilhar com as estrelas
o brilho visceral de teus olhos distraídos.
(AuGraca, 26 ago. 2007)
12 Agosto 2007
Sobre Ser Amado (trecho)
...“Porque é preciso aprender a despertar o amor,
sem pudor ou receio
de ofender o mundo com o nosso brilho.
É preciso saber fazer a triagem.
Escolher as pessoas exatas
que vão se apaixonar pelas nossas paixões.
Aquelas que vão se atirar em nossos abismos.
Que bebam até a última gota de nossa sede.
Que se espelhem em nossa beleza.
Porque ser belo é algo mais nobre do que mirar o belo.”...
(Fernando Chuí)
...“Porque é preciso aprender a despertar o amor,
sem pudor ou receio
de ofender o mundo com o nosso brilho.
É preciso saber fazer a triagem.
Escolher as pessoas exatas
que vão se apaixonar pelas nossas paixões.
Aquelas que vão se atirar em nossos abismos.
Que bebam até a última gota de nossa sede.
Que se espelhem em nossa beleza.
Porque ser belo é algo mais nobre do que mirar o belo.”...
(Fernando Chuí)
09 Agosto 2007
07 Agosto 2007
POEMINHA PARA COMADRE!
Lúcia,
Uma lágrima desata quando dizes o que sentes e me julgas boa.
Estaria essa lágrima perdida entre os desvios que a emoção esconde?
Ou teria renascido do próprio sal que me seca as vertentes da alegria?
Quando dizes o que sentes devagar
oscilando entre o amor e a delicadeza que a amizade instala
me refaço e me contraio exigindo de mim mesma
que me orgulhe dos encontros presumidos e das perdas ocultadas
entre as brechas de luz que toda alma emana.
[Au, 06/08/2007]
Uma lágrima desata quando dizes o que sentes e me julgas boa.
Estaria essa lágrima perdida entre os desvios que a emoção esconde?
Ou teria renascido do próprio sal que me seca as vertentes da alegria?
Quando dizes o que sentes devagar
oscilando entre o amor e a delicadeza que a amizade instala
me refaço e me contraio exigindo de mim mesma
que me orgulhe dos encontros presumidos e das perdas ocultadas
entre as brechas de luz que toda alma emana.
[Au, 06/08/2007]
06 Agosto 2007
POEMAS QUE ME ENCANTAM!
Dois Fogos (Desenho e poema de Fernando Chuí)
Há na alma algo de metal
que se funde em coisas sem nome.
Há no corpo algo de papel
que se queima ao inevitável.
Há no universo algo de plástico
que se derrete, anti-galáxia.
Há na memória algo de pano
que se eleva, bandeira em chamas..
E há dois tipos de fogo:
um que lume
e outro que incêndio;
um que ardor
e outro destruição;
um que cauteriza
e outro que carboniza;
um que aceso
e outro que apago;
um que dança qual labareda
e outro que agoniza qual epilético;
um que calor
e outro que dor...
Há dois tipos de fogo:
o primeiro é o mesmo que o segundo.
Filhos da mesma combustão,
da mesma fumaça
- um é pai do outro
e vice-versa..
Cuidemos, pois, da brasa e do carvão..
Dois,
em cada um de nós.
Que o mesmo fogo
segue os dias a cinzelar.
17 Julho 2007
BRENO NAHUZ, nove anos
16 DE JULHO
Entusiasmo de ver todos os filmes do Harry Potter
olhos bem abertos para rasgar os papéis dos presentes
alegria de brincar no Danny's Park
fome para almoçar iaksoba e rolinhos primavera no Hangai
beijos no pai na avó e na sua amiga velhinha
contínua presença em nossas vidas
segreda desejos de ser ator quando crescer.
23 Junho 2007
PROCURA INSANA
Arrisco o dia
quando busco a luz
que se ocultou em teu olhar.
Arrisco meu avesso
para encontrar meu coração
fragmentado em fibra e veia
esgarçado e inútil.
(Aurora da Graça, 2007)
TESTAMENTO ANTECIPADO
Não quero ser a mulher velha
pensativa
que lamenta seus humores
seu excesso de decoro
suas idiossincrasias
não quero ser a mulher velha
sem o brilho nos cabelos
sem a boca que deseja beijos grandes
e calores pelo corpo
por inteiro
não quero ser a mulher velha
pelos cantos do planeta
sonhos recolhidos no pavor sem lucidez
do vivido ou imaginado
pensativa
que lamenta seus humores
seu excesso de decoro
suas idiossincrasias
não quero ser a mulher velha
sem o brilho nos cabelos
sem a boca que deseja beijos grandes
e calores pelo corpo
por inteiro
não quero ser a mulher velha
pelos cantos do planeta
sonhos recolhidos no pavor sem lucidez
do vivido ou imaginado
não quero ser a mulher velha
ofegante temerosa de seus passos
pés calçados meias grossas e pantufas
ofegante temerosa de seus passos
pés calçados meias grossas e pantufas
não quero ser a mulher velha
esquecida dos amores que viveu
nos poemas reescritos na memória em desalinho
esquecida dos amores que viveu
nos poemas reescritos na memória em desalinho
não quero ser a mulher velha
controversa sem pudor ou alegria
compelida a rigores que massacram suas irmãs
controversa sem pudor ou alegria
compelida a rigores que massacram suas irmãs
não quero ser a mulher velha
idéias cruas sem o lume da poesia
para entender as dobras do oculto
nas ranhuras fatais da agonia
idéias cruas sem o lume da poesia
para entender as dobras do oculto
nas ranhuras fatais da agonia
não quero ser a mulher velha
construída de ossos fracos
pele em franjas sem nácar que realce
os anos do fulgor inexistente
construída de ossos fracos
pele em franjas sem nácar que realce
os anos do fulgor inexistente
não quero ser a mulher velha
riso apagado complacente
e nenhuma gargalhada
riso apagado complacente
e nenhuma gargalhada
não quero ser a mulher velha
alheia ao tempo ao tédio
combalida
entregue às farpas da amargura e só.
alheia ao tempo ao tédio
combalida
entregue às farpas da amargura e só.
(Aurora da Graça, 2007)
MENINO SANTO

SÃO JOÃO BATISTA, menino
A devoção materna te vestiu de santo
quando, ainda menino tu sonhavas
os sonhos do futuro prometido
entre roseiras de quintais secretos.
Um futuro com espinhos te aguardava
mancebo de tanta formosura
de menino para homem segredaste
para ti mesmo um destino de aventuras.
No futebol consagraste euforia
entre bandeiras que o povo sacudia
e a que detinhas era maior e colorida
para saudar o time preferido
nas listras coloridas da alegria.
Quando soldado uma guerra te apontava
a batalha instalada em tuas veias
(frágeis vias sem vitalidade)
essas veias modelaram teu destino
e te feriram mais que facas afiadas
pra cortar tua vida e seu sentido.
Também foste mascate pelas ruas da cidade
funcionário também das escrituras
dominaste mil tarefas transitórias
entre o olhar para o futuro e a monótona rotina.
Só teus pés não bastaram para a trilha.
Foste muito pouco para tantos sonhos
foste inacabado para tantos planos.
As palavras se misturam na memória
pra falar de ti e teus temores
teus desejos teus anseios e teus medos
e a extrema complacência com ti mesmo.
(Aurora da Graça, 2007)
A devoção materna te vestiu de santo
quando, ainda menino tu sonhavas
os sonhos do futuro prometido
entre roseiras de quintais secretos.
Um futuro com espinhos te aguardava
mancebo de tanta formosura
de menino para homem segredaste
para ti mesmo um destino de aventuras.
No futebol consagraste euforia
entre bandeiras que o povo sacudia
e a que detinhas era maior e colorida
para saudar o time preferido
nas listras coloridas da alegria.
Quando soldado uma guerra te apontava
a batalha instalada em tuas veias
(frágeis vias sem vitalidade)
essas veias modelaram teu destino
e te feriram mais que facas afiadas
pra cortar tua vida e seu sentido.
Também foste mascate pelas ruas da cidade
funcionário também das escrituras
dominaste mil tarefas transitórias
entre o olhar para o futuro e a monótona rotina.
Só teus pés não bastaram para a trilha.
Foste muito pouco para tantos sonhos
foste inacabado para tantos planos.
As palavras se misturam na memória
pra falar de ti e teus temores
teus desejos teus anseios e teus medos
e a extrema complacência com ti mesmo.
(Aurora da Graça, 2007)
20 Junho 2007
CLARIDADE DA ACOLHIDA

CLARIDADE DA ACOLHIDA
Quisera ser amiga da noite para com ela ou dentro dela
compartilhar de seus mistérios e armadilhas.
A claridade que me alucina durante o dia
me oculta para o resto das horas e durmo
impedida de perceber o que a inspiração dos deuses
traz para cada um.
Aproveitando os vestígios de luz que a noite ainda recebe
da lua escondida em alguma nuvem
de algum sol que fugiu da China
de nosso coração em brasa
das fogueiras que os amantes acenderam ao seu redor
da tarde ensolarada deste norte
dos olhos incandescentes e atormentados pelo que não viram
do vermelho do sangue derramado
em lágrimas ardentes pelo mundo
de onde terá chegado essa réstia de luz ao teu peito
do coração de quem não está?
Lúcia Fernando Anita
do sono profundo e adolescente de Vitor
da discreção de Ana
da eufórica Dodora
da ansiedade de Jane
da sisudez e sabedoria de Zeca
do bom humor de Márcio
do ar reservado e quieto de Zé Carlos
da baianidade escondida de Inez
de onde?
talvez da paz de Dona Anita no colo de Deus?
Me ilumino da claridade desta manhã
e te acolho com a alegria da amizade
que faz de nós criaturas abertas para a vida.
compartilhar de seus mistérios e armadilhas.
A claridade que me alucina durante o dia
me oculta para o resto das horas e durmo
impedida de perceber o que a inspiração dos deuses
traz para cada um.
Aproveitando os vestígios de luz que a noite ainda recebe
da lua escondida em alguma nuvem
de algum sol que fugiu da China
de nosso coração em brasa
das fogueiras que os amantes acenderam ao seu redor
da tarde ensolarada deste norte
dos olhos incandescentes e atormentados pelo que não viram
do vermelho do sangue derramado
em lágrimas ardentes pelo mundo
de onde terá chegado essa réstia de luz ao teu peito
do coração de quem não está?
Lúcia Fernando Anita
do sono profundo e adolescente de Vitor
da discreção de Ana
da eufórica Dodora
da ansiedade de Jane
da sisudez e sabedoria de Zeca
do bom humor de Márcio
do ar reservado e quieto de Zé Carlos
da baianidade escondida de Inez
de onde?
talvez da paz de Dona Anita no colo de Deus?
Me ilumino da claridade desta manhã
e te acolho com a alegria da amizade
que faz de nós criaturas abertas para a vida.
(Aurora da Graça, 2005)
13 Junho 2007
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