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07 novembro 2010

Texto de Marcia Tiburi (orelha do livro O Tempo Guardado das Pequenas Felicidades)


O Tempo Guardado das Pequenas Felicidades abre-se na generosa gaveta do tempo presente: Estirada no varal do coração/ escorre o que não digo ou sinto/ a palavra/ paz. Não haveria por que perguntar pelas motivações da poesia de Aurora da Graça Almeida, mas lhe agradecemos a chave para o delicado segredo deste tempo presente da poesia que se encontra nestes anos de núpcias da poeta com as palavras. O Tempo Guardado habita o agora do leitor trazendo poemas dos livros antigos revisados e a produção atual. Sabemos da palavra que escorre e avisados, podemos seguir sabendo que não se trata de consolação, nem de feridas que assombram toda poesia, nem alegrias ou tristezas ou qualquer sentimento que possa ser nas palavras mero gesto de desafogo.
A poesia é, em Aurora da Graça, a palavra que escorre, não dita, não sentida, dentre outras ditas/sentidas que, afinal, o sentimento não é proibido ao corpo, pode ser corrosão da alma, pode ser vestido de noiva, pode ser só o próprio do coração, temas da nossa poetisa sempre à mostra para nos salvar, leitores, perdidos em busca de sentido ou de beleza, de algo que nos localize na perdição do mundo. Outro, no entanto, é o estatuto das palavras de Aurora.

A imagem que me parece poder traduzir seu trabalho poético – pois não é mais que isso falar de uma poesia que não pede explicação -, é atenção à fome negra. Uma atenção medida, a que nos fala. Aquela que não será saciada pelo pão tingindo minha fome de nada, mas que lembra certo olhar na busca do que não vê/ advinha. Aurora da Graça cuida de ser límpida como nascente, sem esconder a dor da existência que, no entanto, descontrolada nos devoraria.

É por isso, que sua poesia, aparece como um trabalho de busca da poesia pela própria poesia, avisando que ela vem da vida. Que a vida não é outra que a busca do tempo perdido, reencontrado como guardado de pequenas felicidades. Afinal, o que seria ter escrito? Escrever? E o que temos diante de nós é a pinça poética que, delicadamente, cava as possibilidades dos dados da vida e é capaz de perceber paixões excluídas, esboços que não fiz, tempo estilhaçado, rios inavegáveis, dobras que esmagam.

O livro d’O Tempo Guardado é fundo, mas diverte-nos sem preconceitos: imagens palavras badulaques, são vãos de encontro com o tempo perdido colado no fundo/ entre as frestas. Assim,  com o poema, permite-nos o outro lado das coisas que ela mesma arrisca: arrisco meu avesso/ para encontrar meu coração/ fragmentado. Deixando-nos pensar se o avesso/ é o que não se pode ver/ ou é a melhor visão?
Eis que o livro d’O Tempo Guardado tem mil fundos falsos a cada linha. Abri-lo é infinito.

Marcia Tiburi
Filósofa, Professora e Escritora

@HSchopenhauer_

  Pássaros arrastam-me pelos pés/ fios de linha sobre o corpo quieto/ moeda de troca é a cabeça/ a visão ocre das coisas me oprime em tempo.

A idéia da noite é o homem que parte em um carro/ Deixa o balde de vísceras/ E o bilhete manchado de sangue/ Lerei meu nome ou a liberdade? 28/10/2010

Passo a noite em claro/ ratos entrando e saindo de meus ouvidos/ chama-me a minha mãe com as mãos em fogo/ desenho em minhas cinzas.

Converso com elefantes deitados à soleira/ caolhos, as patas em chagas/ contam-me do tempo em que havia sol/ convidam-me a descer a escada.
 
O som do vinco da folha que desdobro é o choro da criança que há pouco morreu de fome.(07/10/2010)

O homem sem mãos espia atrás da porta/ um assobio cria o espaço/ subo nos ombros da alucinação/ vejo longe. (03/10/2010)

01 outubro 2010

A madrugada é um pensamento pelo avesso.
(Marcia Tiburi on Twitter)

27 setembro 2010

Soprado pela janela/
entre segredo e cansaço/
o grito voa longe/
galho da árvore/
ninho de ovos de ouro.
(@HSchopenhauer_ )

24 setembro 2010

POEMA (ANTIGO) DE DRUMMOND

Miragem
Chegou, impressentida e silenciosa,
Com uma saudade eslava nos cabelos
E um ritmo de crepúsculo ou de rosa.
Os olhos eram suaves e eis que ao vê-los,
Outra paisagem, fluída, na distância,
Sugeria doçuras e desvelos.
No coração, agora já sem ânsia,
paira a serenidade comovida
que lembra os puros cânticos da infância.
Logo depois se foi, mas refletida
nesse espelho interior, onde as imagens
se libertam do tempo, além da vida,
Olenka permanece, entre miragens.

Carlos Drummond de Andrade, 1955

23 setembro 2010

Um copo de água turva à cabeceira/
rugas desenham olhos fechados/
uma boca fala na cabeça de Janus/
a outra silencia/
ou espera?
(@HSchopenhauer_ )

21 setembro 2010

(desenho de Marcia Tiburi, 2010)
Um elefante em meu jardim/
criança pequena/
durmo na tromba enrugada/
o hálito aquecido diz meu futuro.
(@HSchopenhauer_ )

16 setembro 2010

Peguei o olho com a mão/
abri a porta do armário/
quebrei o que tinha por dentro/
guardei o que não posso contar entre dentes.

(@HSchopenhauer_ )

O TEMPO GUARDADO DAS PEQUENAS FELICIDADES

...belo!!! feito da melhor cepa poética que tenho lido nos últimos anos...li o primeiro - Nó de Brilho - mas o que vem depois é cada vez mais lírico, mais denso, mais pleno...Deus, Aurora vc me botou em contato direto com o vento e a maresia de S.Luis, tudo que eu pensei ter exorcizado um dia !!! vc me fez fazer as pazes com esta dor existencial, pura, sutil que escorre dos seus dedos e vai junto com os embalos da rede..as tardes que vc descreve com a quietude dos sentimentos profundos ... é tudo tão bonito que eu aceito finalmente tudo que vem com esse sentimento do inevitável em nós..obrigada, amiga, vou levar comigo seu livro na viagem que inicio segunda feira, vou mostrar para o Antenor Bogéa que está na Grécia...é muito, muito boa a tua poesia... clareia e limpa minha alma...me faz melhor, mais doce, mais tranquila. Beijossss muitossss
Anaiza
Aurora,
Já comecei a ler seu livro com muito entusiasmo.
Alguns poemas que já tinha conhecimento, brindaram nossos encontros entre familiares e amigos queridos.Parabéns! Merece um grande lançamento!
Um abraço e um beijo da sua eterna aluna,
Fernanda
Na casa da infância
andava pelos quartos de portas abertas
espaço onde o fantasma de minha avó gargalhava
entre os lençóis.
Só eu via a avó vagando absorta
recitando versos desconexos
olhos de azul perdido
no tempo das fogueiras na praça da Matriz.
Na casa da infância também andava pelo jardim
de espinhos e urtigas.
As rosas despetaladas a cada crepúsculo.
Na casa da infância andava entre os sonhos
de ser poeta.
(AuGraca, 2010)
Abro os olhos da lagarta/
devoro a língua/
folhas verdes forram o leito/
deposito dedos em figa
onde você me pede silêncio.

(@HSchopenhauer_ )

15 setembro 2010

O TEMPO GUARDADO DAS PEQUENAS FELICIDADES

São Luís, 25 de agosto de 2010
Aurora,
Esta tua obra, de belo título, O tempo guardado das pequenas felicidades, é também bonita no seu formato e na simplicidade da capa, refletindo a sobriedade de tua poesia, tua dicção contida, priorizando uma economia estética que qualifica sobremaneira este teu conjunto de poemas já publicados e dos poemas inéditos.
No mesmo dia em que recebi o livro, restringi-me a folheá-lo, manuseá-lo, indagando de mim mesma sobre o tempo ali guardado, adiando o instante de poder saber que felicidades seriam essas em relicário assim delicado e ao mesmo tempo robusto, em grande volume simultaneamente pesado e leve, em minhas mãos ansiosas.
Teu silêncio, quase ausência, nestes últimos anos, depois de publicar três livros de contida poesia, era uma espécie de refúgio, agora revelado num de teus mais belos poemas: tu escrevias! O poema O privilégio da mudez, vem ratificar que “As palavras se desesperam / rompem o que trava a boca / descobrem a fenda salvadora / movem o que está oculto / erram os alvos ou cruzam a linha fatal / do que não deve ser dito / as palavras deveriam ser apenas escritas / e a boca muda.”
Teu livro, Aurora, por sinal, começa com um pequeno poema que já revela uma espécie de preservada felicidade: Varal é confissão sucinta que diz somente isto: “Estirada no varal do coração / escorre o que não digo ou sinto/ a palavra / paz.”
Essa paz que preservas e guardas, tu a tens indelével no coração: relicário de tuas pequenas felicidades ali recolhidas. Tu escreves. E tua poesia reflete esse tempo-guardião assegurando a travessia do que não é dito, e até mesmo do que não é sentido: as felicidades, que chamas de paz, deslizando enigmáticas nas veias desse teu coração.
Conforta-me saber que uma poetisa do teu quilate, consciente desse afazer quase sem recompensa, sente que “as horas de silêncio santificam / o coração atento para o mistério / e o rumor sem fala” que, afinal, gritam alto no coração de teus leitores.
Desculpa, teu livro merece muito mais que estas poucas palavras, eu deveria falar, falar e mais falar, mas me calo aninhada nos furtivos silêncios que se exasperam nos versos que explodem em nós, versos de uma poetisa de fato e de uma amiga de sempre, cujo nome, aurora da graça, reflete a própria poesia: espécie de inaugural e benevolente felicidade.
Obrigada pelo belo livro que foi, te digo, uma auspiciosa e grata surpresa. A amiga, reconhecida,
Arlete Nogueira da Cruz

OUTRO VOO



(desenho de Marcia Tiburi)
A primeira água
limpa o sangue do útero
tinta no rosto nascido.
Não lava a inocência
(timbre definitivo)
carta marcada
arma contra o horror.
Águas futuras
vai e vem vazado do olhar
m(agoado).
(AuGraca, 2010)

24 agosto 2010

O TEMPO GUARDADO DAS PEQUENAS FELICIDADES

Cara Aurora,
De vez em quando vou lá nos seus poemas e sempre encontro a sua poesia que é macia como uma chuva caindo no fim da tarde e forte como as marés de agosto, poesia-experiência, experiência transformada em palavra poética! nela não tem aqueles truquinhos poéticos, é poesia mesmo, poesia ligada à vida, mas com uma bela forma, um ritmo de acalanto, com um erotismo muito discreto, feito de coisas apenas sugeridas! foi uma boa surpresa encontrar a epígrafe com aquelas palavras minhas e lê-las com outros olhos, depois de tanto tempo...Abraço fraterno e parabéns pelo belo livro
Luís Inácio

19 agosto 2010

ILUSÃO

Caco de espelho
hexágono
pontas de luz.
E por dentro
um eu de lata
forja o salto
para ver-se
mover-se
entre o que é
e o que sonha.
2
Eu contido
véspera
aço
ferrugem
lata
prisão
nas pontas cegas
ofuscadas
de tanta luz.

(AuGraca, 2010)

23 julho 2010

Todas as horas
os raios de sol
os ventos da madrugada
inventarão meu dia
mas fecharei as janelas
permanecerei
no vazio da noite
escudo e lança
pedra e açoite
da salvação.
(Au_2010)

17 julho 2010

O ardor basta
nem que os olhos nadem
lágrimas
nem que o pensamento dissolva
sílabas perdidas
nem que o dia abafe raios incandescentes
sol declarado
o ardor é o coração.
Basta.
(AuGraca, 2010)
"Dias em vala comum/rasgo com a faca dos olhos/a palma da mão/não acordo." (Dos papéis de H.S. )
(Twitter de Marcia Tiburi)

02 julho 2010

"Morta com tuas pálpebras guilhotinas".
Dos papéis de Helena S.
(Twitter de Marcia Tiburi)

15 junho 2010

A cama é estreita
para a largura do tédio.
Silenciosa
acolhe
a escultura do
corpo
transversal
corpo-voz
mudo
mortificado
escravo da vida.

2
Sílabas de silêncio
na pele
cinzelada a fogo
anunciam a alma
em pânico
desenhada na mudez
pigmentada.

(AuGraca, 2010)
"O médico receitou-me comprimidos para a literatose. Doem-me as veias e não durmo. Morro de tanto ler." Dos papéis de Helena S.
'tento assustar o frio com palavras de fogo' (dos papeis de helena s.)

05 junho 2010














Excêntrica viagem
a que me expõe aos quatro cantos
do desejo.

(AuGraca, 2010)

29 maio 2010

ENGANOS

O dia novo mal sai das nuvens
e o poema mortificado
implora silabas.
2
Herdei as vestes negras
código para mover-me
indiscernível
no corpo da noite
por dentro de mim
enganos abortados
e a palavra
sem sair da boca
reinventa- se nas dobras secretas
_ boca sagrada.















BAIXA-MAR
O mar é avaro em suas águas
limita à lama a onda tímida
vai-e-vem interminável
sal e algas
água-viva/fogo líquido/veneno azul
arde no corpo.
(AuGraca, 2010)

28 maio 2010

MEU DIA DE CREUZA

http://www.youtube.com/watch?v=SLsiHv__AqQ&feature=player_embedded

19 maio 2010

Vi mais do que a retina pode
vejo ontem.
(AuGraca, 2010)
A farpa escolhe a pele
na aparência do avesso
dali
remove o segredo.
Na fala silenciosa do corpo
o suor dita o desejo.
AuGraca, 2010)

18 maio 2010










Quando amanhece
o poema crava suas mãos de alfinete
me entontece
não se importa com o nada.
Espreita minhas mãos
tato incauto no teclado
advinha as linhas apagadas
sem exatidão gramatical
dança no obscuro
diz silenciosamente
que o dia é vindo.









A máscara de papel ou seda
estampa o rosto. Recalcado
revela-se
sobrevivente
imagem reinventada
na luz do spot.
Prazer de ver
nos olhos
mudez de silenciosa causa
na boca.
Improvisar-se.
O gesto inclui o mitigado olhar sem ilusão.

10 maio 2010













"O mar inteiro não é bastante
para o que há em mim de tanta sede."
(Luís Inácio Oliveira)












“Conheci de perto teus ermos e não tive medo
já nos debruçamos – ávidos, suaves – sobre esse
manso abismo.”
(Luís Inácio Oliveira Costa)

08 maio 2010

SÁBADO




Acordo com cara de sábado
no fundo do poço do elevador
um grito
meu nome
copio o lado silencioso
colo na porta para iludir visitas.
(Marcia Tiburi on Twitter)

03 maio 2010

POEMA DESAVISADO

(desenho Chui_Tiburi, Série Bitchos)
Na boca
o ódio amarga
a fala das palavras
ditas
inoculam a nódoa que dilacera
o silêncio
no silêncio
tudo está dito
o afeto some nos laços desatados.
(AuGraca, 2010)

20 abril 2010

VESTÍGIO DE HELENA_AS HORAS















                                 (desenho de Marcia Tiburi)
Um ábaco para contar os dias findos
e as horas de herança sem papéis cartoriais.
Cobaias silenciosas.
Relicário do sabor das doces frutas.
Horas mensais de tanta espera.
(AuGraca, 2010)

19 abril 2010

VESTÍGIO DE HELENA

  
















            (desenho de Marcia Tiburi)
O corpo adormecido pressiona a pele nacarada
lâmina orgânica de veias desenhadas por um sangue de outra cor.
Nenhuma compaixão para esse mundo desmoronado.
A ferida morta ainda sangra o tempo das despedidas.
As palavras os gestos o calor do corpo escapam da memória.
O tempo de agora se vai.
A vida míngua.

(AuGrac,2010)

13 abril 2010

TATOO


A moça arranca a venda/
olhos descobertos
brilho do mel ocultado nas retinas.
(In)voluntariamente/
despe o agasalho escuro
desnuda braços e mente
abstrai o que tolda a luz
cravada no cadinho medieval.
Mostra-se.

11 abril 2010

ANTI-ALELUIA

Alguém anunciará nas quintas-feiras
o destino premiado da alegria
aos sábados recolherei as gargalhadas
da aurora delirante
2
o vento espalhou na relva
meus sonhos tingidos de manhã
sem ímpeto
sem o fio da lâmina
desenho rasurado
deixei escapar
os sonhos arrebatados pelo vento
3
tivesse fé nos milagres e nos santos
escreveria Ladainha e Glória
para clamar a vida escorraçada da ventura
tivesse lume entre os poros e as veias
acenderia fogueiras
labaredas
mastros de luz ao meu redor
4
com meia máscara cobrirei minha alma
de tão pequena caberá entre os olhos recortados no cetim
se fugir desgovernada
delicada palavra guiará seu vôo
fica
5
o corpo fraqueja se não tomo a água
que lava os olhos amanhecidos reféns da insônia
breu do avesso
6
molduras de ouro
para as águas de olhos esquecidos
represa
7
horas inúteis sobre a pedra
olhos ilhados no mesmo olhar
abrolhos sem mar
estacas de vento
maresia intacta
se “todo cais é uma saudade de pedra”
serei rochedo.
(AuGraca, 2010)
Publicado no blog:
http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk/ de Marcia Tiburi.

EU POR MIM


Na vida fiz tudo o que me compete
conheci letras brinquei com elas
achei temperos fiz iguarias
andei no mundo das catedrais
fugindo dos desatinos
na vida nunca fui bela
não tive bodas nem descendentes
flertei com o amor disfarçado
mordaça oculta
no dia a dia
ganhei meu quilo de sal
de cada gota do mar
(beirais de brancas espumas
mistério de verde encanto)
herança banal para a vida
de afetos desencontrados
milagres inesperados
ataram fios e teias
de sonhos despedaçados
soldaram elos partidos
cicatrizaram feridas
ao longo de tal viagem
na vida
qualquer destino inclui a felicidade
tal rédea move o desejo
se a alma desenganada
deslinda no verso do espelho
o ouro de minha fala.
(AuGraca,2010)

04 abril 2010









PAIXÃO DE CRISTO

O Cristo na cruz de séculos
vela cabisbaixo sua morte anunciada
contempla (sem ver) o sofrimento espelhado
nas praças das cidades sem fé
ali sob holofotes
os que se cobrem de andrajos
ferem-se nos espinhos de arame
o sangue fabricado
escorre da coroa de aluguel
inutilmente.
(AuGraca , 2010)

24 março 2010

O OLHAR
















(Vermeer

O olhar entre pálpebras senis
tal sonâmbulo afligido no meio das avencas
indaga sem cerimônia ou medo de respostas
para que lado foi a luz

o jardim mental acolhe o olhar opaco
refletido na escuridão inóspita que me rodeia
sob o sol
(senhor de todas as claridades)

olhar juvenil desconstruído
sombra instalada no revés da noite
como náufrago sem remo acena sem gestos
aos contornos inacessíveis da cidade adormecida

meu olhar vitimado implora um lugar
na luz do tempo da memória.
(AuGraca, 2010)

19 março 2010

POEMA DE AURORA DA GRAÇA


Na palma da mão
afago os desígnios invisíveis
do que não ousei reter em cada noite ou manhã
do tempo arrastado até aqui

tropeços e horas encantadas
na bifurcação de cada linha
abstratos contornos
rumos do destino contraditório
mistério encapuzado nos traços
sem a ponta do fio

para entender os sinais falta o código
- o milagre de olhar para dentro -
pela palma da mão.

(Aurora da Graça, 2010)

Marcia Tiburi postou este poema em seu blog PinkPunk. http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk/2010/03/17/poema-de-aurora-da-graca-almeida/#comment-2139

04 março 2010

Com Meus Olhos de Cão











"Descubro-me rei/ Lantejoulado de treva
/ As facas golpeando/ Tempo e sensatez."
Hilda Hilst In Com Meus Olhos de Cão

28 fevereiro 2010

Um quarto blindado para a alma
e cerca de farpas ao coração
exilados
asilados
lamentam o tempo
alimento intocado
fugaz.
A névoa abriga o desencanto.
                                  
(AuGraca, 2010)

27 fevereiro 2010

Elias Canetti





"Jamais dominarei os sentimentos.
Havia luto demais em mim: os mortos.
Havia encanto demais em mim: amor."

(Elias Canetti in Sobre a Morte.)

HILDA HILST


Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor


I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.


Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


II
Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.


Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)


[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]
[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]

23 fevereiro 2010

UNGUENTO E SAL









(Desenho de Marcia Tiburi, 2010)

A moça arranca a venda
olhos descobertos
brilho do mel ocultado nas retinas.
(In)voluntariamente
despe o agasalho escuro
desnuda braços e mente
abstrai o que tolda a luz
cravada no cadinho medieval.
Mostra-se.

2

O destino troca ungüento por sal
goteja desmarcado na ferida isolada
o sangue incolor não revela
a dor.

Aurora da Graça, fev. 2010)

01 fevereiro 2010

Poema de Helena Schopenhauer B.

Odilon Redon, Ophelia, 1905

"Passei a noite vertendo a luz negra no oceano à beira da minha janela
arranha-céus afogados
olhos de âncora
você me dizia ser tudo o que eu queria
carregando uma bandeira azul
sobre um cavalo de oito patas
agarrei-me às suas costas como a borboleta a um tigre e
esperei a tempestade passar


quando voltou o sol
nasceram asas mercuriais em meus tornozelos"

(as " são da própria Helena)

(from http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk)

07 outubro 2009

DECISÃO

Não guardarei mais os poemas no baú
recitarei nas praças e botequins.
Todos saberão que fui poeta às escondidas.

11 setembro 2009


ARREBENTAÇÃO

A noite avança sem pedir licença
absoluta
sem dizer a que veio.

A noite é lugar oculto
para a voz
para o sono
para o obscuro
pensar.

A noite estende o pano negro
da melancolia disfarçada e inútil
estado de voraz decifração do nada.

A noite aponta o que longe não se vê
dedos de névoa
escafandro
limite
paraíso de segredos
senhora dos desejos
“breu do ciúme”
cais despedaçado.

Noite!
Nenhuma água te lava.

(Aurora da Graça, 2009)

AURORA

Foto Ana de Toledo
http://www.copacabanadetoledo.blogger.com.br/

A claridade nos açoita
homônima de mim
aurora
esplendor da manhã
vem do fundo do breu
como de seu avesso
entranhado na cúpula
da noite.

(Aurora da Graça, 2009)

02 setembro 2009

Um poema


O poema de Helena S.

A palavra morta
me cai da boca
que outrora viva
o pensamento

na palavra estreita.

Finge a alma
não tenho mais os dias que vivi
sem razão
sem desrazão

cresci de palavras

só

o mundo vigiava

as voltas
do meu tormento.

Conto as gotas
como dias que hei de beber
sem água
nada me devolve a visão
que um dia me lavou o rosto

fazendo-me acordar e mais nada.

28 janeiro 2009

????

O desamparo
é Páris vagando nas montanhas
ou a mulher entristecida
quase irmã.
(AuGraca, 2009)

21 dezembro 2008

ALCAÇUZ PARA O ANJO

O anjo habita a vila de pedra
move-se com delicadeza
para não quebrar as asas
bebe goles de alcaçuz
e dorme
tem sonhos infantis
e dores humanas
olha os homens e as mulheres
com alegria de anjo
e sorri.





(Foto de menino sob chuva em SP, dez. 2008)

16 setembro 2008

FUGA

A notícia se espalhou pelas esquinas.
Sobre meu paradeiro, nenhum vestígio
homens e mulheres saíram à procura
do meu corpo enfraquecido

meu espírito sonâmbulo
é guia imaginário na rota do desespero

tenho feridas nos pés
e o coração tropeçado em si mesmo

se o corpo buscar o chão
(tapete de pedras pontiagudas
tal leito de faquir em seu martírio)
resistirei
alçada nas fímbrias do sonho que me alimenta
e protege
o sonho de encontrar um lugar onde ninguém possa chegar
o lago de águas luzidias e mornas
perto das montanhas

as mulheres e os homens desistirão da busca
quando perceberem que de mim só ficou o contorno iluminado
(bruxuleante ) a se extinguir pelos caminhos.

(AuGraca, jul. 22)

















FARELO DE LUZ

A noite pode ser mais que espera e sombra
se advinhamos a dança das estrelas
na fresta do olho

dançarinas da noite
ou lâminas do dia
unem ou retalham
o invisível

o universo é farelo de luz
se a mão é concha
para acolher o brilho.

(AuGraca, ago. 18)

RECLUSÃO














1
Meu tesouro
são as quatro paredes
e uma cadeira
o coração aquecido
e um lápis.

2
A palavra me guia
na direção oposta da rima
dizer é controverso.

3
Na falta de arroz e peixe
e azeite para o candeeiro
tateio o escuro e a fome
alguém me dará água
nesse gesto
luz.

(Au, 14 set. 2008)

20 julho 2008

PARTILHA

Em um lugar pequeno
guardaria se coubesse
a brisa
o milagre
e as palavras

em outro lugar menor ainda
esconderia o brilho dos olhos
farol ou lamparina

na caixa de marfim
libertaria o riso
nas mãos pequenas
sem maciez
o gesto inconsistente
diria adeus.


(Aurora da Graça, 2008)

15 julho 2008

(desenho de Fernando Chuí)
NÃO TER

Quisera não ter penas
meu riso se espalharia

quisera não ter pernas
usaria minhas asas

quisera não ter mãos
o poema se calaria

quisera não ter olhos
o escuro seria imagem

quisera não ter alma
seria irmã do robô

quisera não ter febre
fosse brasa camuflada

quisera não ser estilhaço
que a palavra fere e cala.

10 julho 2008

(gravura de Marcia Tiburi)
RASTRO DE LUZ

A rosa emerge solitária da sombra
vem coberta com véu de giz
sua máscara inventada
é caule e corpo do que afaga
e contradiz
alguma luz de rastro
exige permanência
adia o escuro.

26 maio 2008


Eram frestas
o que se podia ver
o que estava por dentro era adivinhado
como se imagina o dia que ainda vem.


(AuGraca, maio, 20)

SÃO VICENTE DE MINAS


DÍVIDA DE PÃO

A mulher veio primeiro
cabelos mais brancos que neve
pés expostos ao frio

o homem negro
sob chapéu de abas largas
cinza de cor seu paletó
pede poucos pães

o rapaz adentra
quer café quente e açúcar
cabelos negros de moldura
para sua face
bela

entram outras mulheres
com suas vestes rancheiras
aprumadas sob o frio de Minas
escolhem leite frio

sobre o balcão o caderno de notas
crediário
para os que alongam sua dívida de pão.

(AuGraca, SVMinas, maio, 25)

RIO DE JANEIRO


O SILÊNCIO DA CIDADE

O Corpo de Cristo (no calendário)

esvazia a cidade

andar por ela é olhar o tempo de um século que já não é
a cidade e seus portais de marfim e alabastro
pedras de cantaria

a cidade vive o tempo esgotado nas moradias antigas
pedra de lioz e calmaria
exulta o silêncio do vazio visível nos caminhos de sol e sombra
na paz quase absurda que a envolve

a cidade está livre entre o mar e a montanha

fulgurada nos vitrais de suas igrejas
permanece alheia aos apelos do mar que a banha
entrega-se aos passantes retalhados de desejos
vida simples e outra fome

a cidade se apodera da manhã
prescinde dos tempos vesperais e vive
como a eterna debutante da aurora
no silêncio que o Corpo de Cristo testemunha

nas casas descoradas muito antigas
o silêncio sustenta suas vigas
galpões devassados pelo pó serragem e o que restou
trastes imprestáveis portões sem tranca ruas em curvas
e ruínas do que antes foi palácio
casas que abrigaram os que chegaram com o Rei

a cidade sob sol e silêncio afastou o vozerio
para lembrar sua longa história de festas e reinados

nos tempos deste século sonha desmemoriada
em seus cômodos cedidos ao comércio de apetrechos

vagar

pela cidade envergonhada de seus crimes
compungida de suas perdas se desnuda
vigiada pelo Corpo de Cristo exibido no calendário.

(AuGraca, Rio de Janeiro, maio, 22)