13 abril 2010
TATOO
A moça arranca a venda/
olhos descobertos
brilho do mel ocultado nas retinas.
(In)voluntariamente/
despe o agasalho escuro
desnuda braços e mente
abstrai o que tolda a luz
cravada no cadinho medieval.
Mostra-se.
11 abril 2010
ANTI-ALELUIA
Alguém anunciará nas quintas-feiras
o destino premiado da alegria
aos sábados recolherei as gargalhadas
da aurora delirante
2
o vento espalhou na relva
meus sonhos tingidos de manhã
sem ímpeto
sem o fio da lâmina
desenho rasurado
deixei escapar
os sonhos arrebatados pelo vento
3
tivesse fé nos milagres e nos santos
escreveria Ladainha e Glória
para clamar a vida escorraçada da ventura
tivesse lume entre os poros e as veias
acenderia fogueiras
labaredas
mastros de luz ao meu redor
4
com meia máscara cobrirei minha alma
de tão pequena caberá entre os olhos recortados no cetim
se fugir desgovernada
delicada palavra guiará seu vôo
fica
5
o corpo fraqueja se não tomo a água
que lava os olhos amanhecidos reféns da insônia
breu do avesso
6
molduras de ouro
para as águas de olhos esquecidos
represa
7
horas inúteis sobre a pedra
olhos ilhados no mesmo olhar
abrolhos sem mar
estacas de vento
maresia intacta
se “todo cais é uma saudade de pedra”
serei rochedo.
(AuGraca, 2010)
Publicado no blog:
http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk/ de Marcia Tiburi.
o destino premiado da alegria
aos sábados recolherei as gargalhadas
da aurora delirante
2
o vento espalhou na relva
meus sonhos tingidos de manhã
sem ímpeto
sem o fio da lâmina
desenho rasurado
deixei escapar
os sonhos arrebatados pelo vento
3
tivesse fé nos milagres e nos santos
escreveria Ladainha e Glória
para clamar a vida escorraçada da ventura
tivesse lume entre os poros e as veias
acenderia fogueiras
labaredas
mastros de luz ao meu redor
4
com meia máscara cobrirei minha alma
de tão pequena caberá entre os olhos recortados no cetim
se fugir desgovernada
delicada palavra guiará seu vôo
fica
5
o corpo fraqueja se não tomo a água
que lava os olhos amanhecidos reféns da insônia
breu do avesso
6
molduras de ouro
para as águas de olhos esquecidos
represa
7
horas inúteis sobre a pedra
olhos ilhados no mesmo olhar
abrolhos sem mar
estacas de vento
maresia intacta
se “todo cais é uma saudade de pedra”
serei rochedo.
(AuGraca, 2010)
Publicado no blog:
http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk/ de Marcia Tiburi.
EU POR MIM
Na vida fiz tudo o que me compete
conheci letras brinquei com elas
achei temperos fiz iguarias
andei no mundo das catedrais
fugindo dos desatinos
na vida nunca fui bela
não tive bodas nem descendentes
flertei com o amor disfarçado
mordaça oculta
no dia a dia
ganhei meu quilo de sal
de cada gota do mar
(beirais de brancas espumas
mistério de verde encanto)
herança banal para a vida
de afetos desencontrados
milagres inesperados
ataram fios e teias
de sonhos despedaçados
soldaram elos partidos
cicatrizaram feridas
ao longo de tal viagem
na vida
qualquer destino inclui a felicidade
tal rédea move o desejo
se a alma desenganada
deslinda no verso do espelho
o ouro de minha fala.
(AuGraca,2010)
04 abril 2010

PAIXÃO DE CRISTO
O Cristo na cruz de séculos
vela cabisbaixo sua morte anunciada
contempla (sem ver) o sofrimento espelhado
nas praças das cidades sem fé
ali sob holofotes
os que se cobrem de andrajos
ferem-se nos espinhos de arame
o sangue fabricado
escorre da coroa de aluguel
inutilmente.
(AuGraca , 2010)
24 março 2010
O OLHAR
(Vermeer
O olhar entre pálpebras senis
tal sonâmbulo afligido no meio das avencas
indaga sem cerimônia ou medo de respostas
para que lado foi a luz
o jardim mental acolhe o olhar opaco
refletido na escuridão inóspita que me rodeia
sob o sol
(senhor de todas as claridades)
olhar juvenil desconstruído
sombra instalada no revés da noite
como náufrago sem remo acena sem gestos
aos contornos inacessíveis da cidade adormecida
meu olhar vitimado implora um lugar
na luz do tempo da memória.
(AuGraca, 2010)
19 março 2010
POEMA DE AURORA DA GRAÇA
Na palma da mão
afago os desígnios invisíveis
do que não ousei reter em cada noite ou manhãdo tempo arrastado até aqui
tropeços e horas encantadas
na bifurcação de cada linha
abstratos contornos
rumos do destino contraditório
mistério encapuzado nos traços
sem a ponta do fio
para entender os sinais falta o código
- o milagre de olhar para dentro -
pela palma da mão.
(Aurora da Graça, 2010)
Marcia Tiburi postou este poema em seu blog PinkPunk. http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk/2010/03/17/poema-de-aurora-da-graca-almeida/#comment-2139
04 março 2010
Com Meus Olhos de Cão
"Descubro-me rei/ Lantejoulado de treva
/ As facas golpeando/ Tempo e sensatez."
Hilda Hilst In Com Meus Olhos de Cão
28 fevereiro 2010
27 fevereiro 2010
Elias Canetti
"Jamais dominarei os sentimentos.
Havia luto demais em mim: os mortos.
Havia encanto demais em mim: amor."
(Elias Canetti in Sobre a Morte.)
HILDA HILST
I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.
II
Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)
[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]
[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]
23 fevereiro 2010
UNGUENTO E SAL

(Desenho de Marcia Tiburi, 2010)
A moça arranca a venda
olhos descobertos
brilho do mel ocultado nas retinas.
(In)voluntariamente
despe o agasalho escuro
desnuda braços e mente
abstrai o que tolda a luz
cravada no cadinho medieval.
Mostra-se.
2
O destino troca ungüento por sal
goteja desmarcado na ferida isolada
o sangue incolor não revela
a dor.
Aurora da Graça, fev. 2010)
01 fevereiro 2010
Poema de Helena Schopenhauer B.
"Passei a noite vertendo a luz negra no oceano à beira da minha janela
arranha-céus afogados
olhos de âncora
você me dizia ser tudo o que eu queria
carregando uma bandeira azul
sobre um cavalo de oito patas
agarrei-me às suas costas como a borboleta a um tigre e
esperei a tempestade passar
quando voltou o sol
nasceram asas mercuriais em meus tornozelos"
(as " são da própria Helena)
(from http://colunas.gnt.globo.com/pinkpunk)
12 dezembro 2009
07 outubro 2009
DECISÃO
Não guardarei mais os poemas no baú
recitarei nas praças e botequins.
Todos saberão que fui poeta às escondidas.
recitarei nas praças e botequins.
Todos saberão que fui poeta às escondidas.
11 setembro 2009

ARREBENTAÇÃO
A noite avança sem pedir licença
absoluta
sem dizer a que veio.
A noite é lugar oculto
para a voz
para o sono
para o obscuro
pensar.
A noite estende o pano negro
da melancolia disfarçada e inútil
estado de voraz decifração do nada.
A noite aponta o que longe não se vê
dedos de névoa
escafandro
limite
paraíso de segredos
senhora dos desejos
“breu do ciúme”
cais despedaçado.
Noite!
Nenhuma água te lava.
A noite avança sem pedir licença
absoluta
sem dizer a que veio.
A noite é lugar oculto
para a voz
para o sono
para o obscuro
pensar.
A noite estende o pano negro
da melancolia disfarçada e inútil
estado de voraz decifração do nada.
A noite aponta o que longe não se vê
dedos de névoa
escafandro
limite
paraíso de segredos
senhora dos desejos
“breu do ciúme”
cais despedaçado.
Noite!
Nenhuma água te lava.
(Aurora da Graça, 2009)
AURORA
http://www.copacabanadetoledo.blogger.com.br/
A claridade nos açoita
homônima de mim
aurora
esplendor da manhã
vem do fundo do breu
como de seu avesso
entranhado na cúpula
da noite.
homônima de mim
aurora
esplendor da manhã
vem do fundo do breu
como de seu avesso
entranhado na cúpula
da noite.
(Aurora da Graça, 2009)
02 setembro 2009
Um poema
O poema de Helena S.
A palavra morta
me cai da boca
que outrora viva
o pensamento
na palavra estreita.
Finge a alma
não tenho mais os dias que vivi
sem razão
sem desrazão
cresci de palavras
só
o mundo vigiava
as voltas
do meu tormento.
Conto as gotas
como dias que hei de beber
sem água
nada me devolve a visão
que um dia me lavou o rosto
fazendo-me acordar e mais nada.
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