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07 outubro 2009

DECISÃO

Não guardarei mais os poemas no baú
recitarei nas praças e botequins.
Todos saberão que fui poeta às escondidas.

11 setembro 2009


ARREBENTAÇÃO

A noite avança sem pedir licença
absoluta
sem dizer a que veio.

A noite é lugar oculto
para a voz
para o sono
para o obscuro
pensar.

A noite estende o pano negro
da melancolia disfarçada e inútil
estado de voraz decifração do nada.

A noite aponta o que longe não se vê
dedos de névoa
escafandro
limite
paraíso de segredos
senhora dos desejos
“breu do ciúme”
cais despedaçado.

Noite!
Nenhuma água te lava.

(Aurora da Graça, 2009)

AURORA

Foto Ana de Toledo
http://www.copacabanadetoledo.blogger.com.br/

A claridade nos açoita
homônima de mim
aurora
esplendor da manhã
vem do fundo do breu
como de seu avesso
entranhado na cúpula
da noite.

(Aurora da Graça, 2009)

02 setembro 2009

Um poema


O poema de Helena S.

A palavra morta
me cai da boca
que outrora viva
o pensamento

na palavra estreita.

Finge a alma
não tenho mais os dias que vivi
sem razão
sem desrazão

cresci de palavras

só

o mundo vigiava

as voltas
do meu tormento.

Conto as gotas
como dias que hei de beber
sem água
nada me devolve a visão
que um dia me lavou o rosto

fazendo-me acordar e mais nada.

28 janeiro 2009

????

O desamparo
é Páris vagando nas montanhas
ou a mulher entristecida
quase irmã.
(AuGraca, 2009)

21 dezembro 2008

ALCAÇUZ PARA O ANJO

O anjo habita a vila de pedra
move-se com delicadeza
para não quebrar as asas
bebe goles de alcaçuz
e dorme
tem sonhos infantis
e dores humanas
olha os homens e as mulheres
com alegria de anjo
e sorri.





(Foto de menino sob chuva em SP, dez. 2008)

16 setembro 2008

FUGA

A notícia se espalhou pelas esquinas.
Sobre meu paradeiro, nenhum vestígio
homens e mulheres saíram à procura
do meu corpo enfraquecido

meu espírito sonâmbulo
é guia imaginário na rota do desespero

tenho feridas nos pés
e o coração tropeçado em si mesmo

se o corpo buscar o chão
(tapete de pedras pontiagudas
tal leito de faquir em seu martírio)
resistirei
alçada nas fímbrias do sonho que me alimenta
e protege
o sonho de encontrar um lugar onde ninguém possa chegar
o lago de águas luzidias e mornas
perto das montanhas

as mulheres e os homens desistirão da busca
quando perceberem que de mim só ficou o contorno iluminado
(bruxuleante ) a se extinguir pelos caminhos.

(AuGraca, jul. 22)

















FARELO DE LUZ

A noite pode ser mais que espera e sombra
se advinhamos a dança das estrelas
na fresta do olho

dançarinas da noite
ou lâminas do dia
unem ou retalham
o invisível

o universo é farelo de luz
se a mão é concha
para acolher o brilho.

(AuGraca, ago. 18)

RECLUSÃO














1
Meu tesouro
são as quatro paredes
e uma cadeira
o coração aquecido
e um lápis.

2
A palavra me guia
na direção oposta da rima
dizer é controverso.

3
Na falta de arroz e peixe
e azeite para o candeeiro
tateio o escuro e a fome
alguém me dará água
nesse gesto
luz.

(Au, 14 set. 2008)

20 julho 2008

PARTILHA

Em um lugar pequeno
guardaria se coubesse
a brisa
o milagre
e as palavras

em outro lugar menor ainda
esconderia o brilho dos olhos
farol ou lamparina

na caixa de marfim
libertaria o riso
nas mãos pequenas
sem maciez
o gesto inconsistente
diria adeus.


(Aurora da Graça, 2008)

15 julho 2008

(desenho de Fernando Chuí)
NÃO TER

Quisera não ter penas
meu riso se espalharia

quisera não ter pernas
usaria minhas asas

quisera não ter mãos
o poema se calaria

quisera não ter olhos
o escuro seria imagem

quisera não ter alma
seria irmã do robô

quisera não ter febre
fosse brasa camuflada

quisera não ser estilhaço
que a palavra fere e cala.

10 julho 2008

(gravura de Marcia Tiburi)
RASTRO DE LUZ

A rosa emerge solitária da sombra
vem coberta com véu de giz
sua máscara inventada
é caule e corpo do que afaga
e contradiz
alguma luz de rastro
exige permanência
adia o escuro.

26 maio 2008


Eram frestas
o que se podia ver
o que estava por dentro era adivinhado
como se imagina o dia que ainda vem.


(AuGraca, maio, 20)

SÃO VICENTE DE MINAS


DÍVIDA DE PÃO

A mulher veio primeiro
cabelos mais brancos que neve
pés expostos ao frio

o homem negro
sob chapéu de abas largas
cinza de cor seu paletó
pede poucos pães

o rapaz adentra
quer café quente e açúcar
cabelos negros de moldura
para sua face
bela

entram outras mulheres
com suas vestes rancheiras
aprumadas sob o frio de Minas
escolhem leite frio

sobre o balcão o caderno de notas
crediário
para os que alongam sua dívida de pão.

(AuGraca, SVMinas, maio, 25)

RIO DE JANEIRO


O SILÊNCIO DA CIDADE

O Corpo de Cristo (no calendário)

esvazia a cidade

andar por ela é olhar o tempo de um século que já não é
a cidade e seus portais de marfim e alabastro
pedras de cantaria

a cidade vive o tempo esgotado nas moradias antigas
pedra de lioz e calmaria
exulta o silêncio do vazio visível nos caminhos de sol e sombra
na paz quase absurda que a envolve

a cidade está livre entre o mar e a montanha

fulgurada nos vitrais de suas igrejas
permanece alheia aos apelos do mar que a banha
entrega-se aos passantes retalhados de desejos
vida simples e outra fome

a cidade se apodera da manhã
prescinde dos tempos vesperais e vive
como a eterna debutante da aurora
no silêncio que o Corpo de Cristo testemunha

nas casas descoradas muito antigas
o silêncio sustenta suas vigas
galpões devassados pelo pó serragem e o que restou
trastes imprestáveis portões sem tranca ruas em curvas
e ruínas do que antes foi palácio
casas que abrigaram os que chegaram com o Rei

a cidade sob sol e silêncio afastou o vozerio
para lembrar sua longa história de festas e reinados

nos tempos deste século sonha desmemoriada
em seus cômodos cedidos ao comércio de apetrechos

vagar

pela cidade envergonhada de seus crimes
compungida de suas perdas se desnuda
vigiada pelo Corpo de Cristo exibido no calendário.

(AuGraca, Rio de Janeiro, maio, 22)

07 março 2008

MARÇO!

SOL ANTECIPADO

Sobre as águas
um sol de maio antecipado
mergulha nas ondas (que a baía acolhe)
um faiscar quase inútil.
Ao largo e enfileirados
os navios
(habitantes costumeiros dessas águas)
mudam o leme
e não aportam na baía
navegam para a barra de outro porto
destino em cais reconstruído
na ponta da ilha.

RANHURAS DO AR

Na sala ampla
de poucos móveis
sou a mulher encostada no sofá

a que alonga seus braços sem tocar em nada
a mesma que se abstém de olhar as paredes
vê para dentro
pálpebras cerradas

punhos fechados no vazio
cavar nas ranhuras do ar
depois ...
aquietar-me
recolher-me
dormir
cercada das cores e desenhos
inquilinos das paredes.

LISTA DOS DESEJOS

Se a lista dos desejos perde a ordem
o fio de qualquer rotina nos salva
se encontramos a ponta.

A OUTRA COR

A cinza é o que pode vir
depois que o corpo amortalhado
perde a outra cor e o fogo rebelde
que a paixão exige
ilusão madrasta.


(Aurora da Graça, 2008)

02 março 2008

A frase de Walter Benjamin que eu conheço é “o tédio é a ave de sonho que choca os ovos da imaginação”. (MT)

17 fevereiro 2008

VORAGEM

De nada adiantará
conduzir meus passos para fora da voragem
mudar a direção
porque muitos são os destinados a atravessar o deserto
e eu
não tenho força nem determinação
posso sucumbir diante da ventania
não há controle
meus passos sulcam as areias e meus pés se afundam
a fuga de nada adiantará
a intenção escapa. Esbarro na luz obscena que o pecado oferece
é hora de saber os rumos da salvação.
(AuGraca, 2008)