O título deste blog foi inspirado no meu segundo livro de poemas.
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28 janeiro 2009
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O desamparo é Páris vagando nas montanhas ou a mulher entristecida quase irmã.
(AuGraca, 2009)
21 dezembro 2008
ALCAÇUZ PARA O ANJO
O anjo habita a vila de pedra move-se com delicadeza para não quebrar as asas bebe goles de alcaçuz e dorme tem sonhos infantis e dores humanas olha os homens e as mulheres com alegria de anjo e sorri.
(Foto de menino sob chuva em SP, dez. 2008)
16 setembro 2008
FUGA
A notícia se espalhou pelas esquinas. Sobre meu paradeiro, nenhum vestígio homens e mulheres saíram à procura do meu corpo enfraquecido
meu espírito sonâmbulo é guia imaginário na rota do desespero
tenho feridas nos pés e o coração tropeçado em si mesmo
se o corpo buscar o chão (tapete de pedras pontiagudas tal leito de faquir em seu martírio) resistirei alçada nas fímbrias do sonho que me alimenta e protege o sonho de encontrar um lugar onde ninguém possa chegar o lago de águas luzidias e mornas perto das montanhas
as mulheres e os homens desistirão da busca quando perceberem que de mim só ficou o contorno iluminado (bruxuleante ) a se extinguir pelos caminhos.
(AuGraca, jul. 22)
FARELO DE LUZ
A noite pode ser mais que espera e sombra se advinhamos a dança das estrelas na fresta do olho
dançarinas da noite ou lâminas do dia unem ou retalham o invisível
o universo é farelo de luz se a mão é concha para acolher o brilho.
1 Meu tesouro são as quatro paredes e uma cadeira o coração aquecido e um lápis.
2 A palavra me guia na direção oposta da rima dizer é controverso.
3 Na falta de arroz e peixe e azeite para o candeeiro tateio o escuro e a fome alguém me dará água nesse gesto luz.
(Au, 14 set. 2008)
20 julho 2008
PARTILHA
Em um lugar pequeno guardaria se coubesse a brisa o milagre e as palavras
em outro lugar menor ainda esconderia o brilho dos olhos farol ou lamparina
na caixa de marfim libertaria o riso nas mãos pequenas sem maciez o gesto inconsistente diria adeus.
(Aurora da Graça, 2008)
15 julho 2008
(desenho de Fernando Chuí)
NÃO TER
Quisera não ter penas meu riso se espalharia
quisera não ter pernas usaria minhas asas
quisera não ter mãos o poema se calaria
quisera não ter olhos o escuro seria imagem
quisera não ter alma seria irmã do robô
quisera não ter febre fosse brasa camuflada
quisera não ser estilhaço que a palavra fere e cala.
10 julho 2008
(gravura de Marcia Tiburi)
RASTRO DE LUZ
A rosa emerge solitária da sombra vem coberta com véu de giz sua máscara inventada é caule e corpo do que afaga e contradiz alguma luz de rastro exige permanência adia o escuro.
26 maio 2008
Eram frestas o que se podia ver o que estava por dentro era adivinhado como se imagina o dia que ainda vem.
O Corpo de Cristo (no calendário) esvazia a cidade
andar por ela é olhar o tempo de um século que já não é a cidade e seus portais de marfim e alabastro pedras de cantaria
a cidade vive o tempo esgotado nas moradias antigas pedra de lioz e calmaria exulta o silêncio do vazio visível nos caminhos de sol e sombra na paz quase absurda que a envolve
a cidade está livre entre o mar e a montanha
fulgurada nos vitrais de suas igrejas permanece alheia aos apelos do mar que a banha entrega-se aos passantes retalhados de desejos vida simples e outra fome
a cidade se apodera da manhã prescinde dos tempos vesperais e vive como a eterna debutante da aurora no silêncio que o Corpo de Cristo testemunha
nas casas descoradas muito antigas o silêncio sustenta suas vigas galpões devassados pelo pó serragem e o que restou trastes imprestáveis portões sem tranca ruas em curvas e ruínas do que antes foi palácio casas que abrigaram os que chegaram com o Rei
a cidade sob sol e silêncio afastou o vozerio para lembrar sua longa história de festas e reinados
nos tempos deste século sonha desmemoriada em seus cômodos cedidos ao comércio de apetrechos
vagar
pela cidade envergonhada de seus crimes compungida de suas perdas se desnuda vigiada pelo Corpo de Cristo exibido no calendário.
Sobre as águas um sol de maio antecipado mergulha nas ondas (que a baía acolhe) um faiscar quase inútil. Ao largo e enfileirados os navios (habitantes costumeiros dessas águas) mudam o leme e não aportam na baía navegam para a barra de outro porto destino em cais reconstruído na ponta da ilha.
RANHURAS DO AR
Na sala ampla de poucos móveis sou a mulher encostada no sofá
a que alonga seus braços sem tocar em nada a mesma que se abstém de olhar as paredes vê para dentro pálpebras cerradas
punhos fechados no vazio cavar nas ranhuras do ar depois ... aquietar-me recolher-me dormir cercada das cores e desenhos inquilinos das paredes.
LISTA DOS DESEJOS
Se a lista dos desejos perde a ordem o fio de qualquer rotina nos salva se encontramos a ponta.
A OUTRA COR
A cinza é o que pode vir depois que o corpo amortalhado perde a outra cor e o fogo rebelde que a paixão exige ilusão madrasta.
(Aurora da Graça, 2008)
02 março 2008
A frase de Walter Benjamin que eu conheço é “o tédio é a ave de sonho que choca os ovos da imaginação”. (MT)
17 fevereiro 2008
VORAGEM
De nada adiantará conduzir meus passos para fora da voragem mudar a direção porque muitos são os destinados a atravessar o deserto e eu não tenho força nem determinação posso sucumbir diante da ventania não há controle meus passos sulcam as areias e meus pés se afundam a fuga de nada adiantará a intenção escapa. Esbarro na luz obscena que o pecado oferece é hora de saber os rumos da salvação.
(AuGraca, 2008)
ULTRA SONOGRAFIA
Na sala de exames a mulher de branco me compara com a máquina para dizer que a garganta é livre.
(AuGraca, 2008)
OUTRA PASSÁRGADA
Não desejo a Passárgada que Manoel tanto proclama eu só quero o clarão da lua e a noite pela metade. (AuGraca, 2008)
16 fevereiro 2008
DESALENTO
Vaguei ...Vaguei... perdi a conta dos caminhos e das pontes atravessei riachos molhei-me em córregos não vi peixes nem espelhos venci as pedras e os escuros a luz estava em outro lugar
meu olhar alcançou as encostas escarpas verdes e vivas e por lá nenhum traço que anunciasse os rastros de tua presença
o tempo passou caíram as folhas e a seiva, morta
mudou a paisagem a procura inútil o pensar perdeu-se nos versos a palavra estandarte e guia emudeceu
de real...a metamorfose nós e nódoas nos pés travas desalinho e um coração filtrado da amargura.
Noite úmida véu líquido penetras na minha nudez e revelas o que é frágil e sem beleza olho em mim decido cobrir o que melindras com tua réstia de gelo
procuro em qualquer mala alforje ou gaveta o que possa vestir-me não quero vestidos nem casacos tampouco uniformes ou trajes extravagantes sem apuro o que eu quero mesmo eu sei encontrar qualquer trapo para cobrir a nudez inesperada a nudez que se despetala no tempo a nudez que acoberta o segredo dos desejos a nudez insensata dos desvalidos
cobrir a nudez protegê-la da névoa e do frescor dos ventos recolher o corpo à calmaria dos panos
noite úmida véu líquido cobrir a pele e esconder a nudez no pensamento não dizer nada não ver a nudez não tocá-la deixá-la ao léu isentá-la ignorar que a nudez mostra o corpo e esconde as entranhas oculta o que medra entre os ossos move a lucidez do encontro e reduz a incerteza
cobrir a nudez seus calores e suas ânsias toldar-lhe o viço fechar seus poros abrandar-lhe a fúria
cobrir a nudez espaço da pele onde a ternura pode fazer morada moldura ou armadura a esquivar-me das flechas envenenadas portadoras do que pode matar ou salvar.
Para pouco servem as tias os tios não chegam sempre com alegria e lançam seus galanteios dão presentes contam histórias e bebem
as tias moram no tempo seus desejos são poesia do que nem viveram para alegrar o dia recorrem ao que lhes espia se agacham na frente do baú de papéis cartas antigas cartões infantis retratos frente ao espelho com o batom da mãe fitas convites de formatura lembranças táteis pequenos objetos roupinha da primeira caminhada tudo o que as mães olvidaram ou não lhes sobrou tempo para guardar ou uma caixa um saco uma velha mala falta sentimento nas mães? nada sei
as tias solfejam cantigas para filhos que não pariram seus amores juvenis eram só literatura não quiseram desdobrar-se exibir o dna falta de amor ou fuga para quem não precisasse compor-se