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30 abril 2007

















GAVETAS MÁGICAS

Tempo perdido de arrumar gavetas
povoadas de coisas inúteis
rastros do que não é mais
imagens palavras badulaques

tempo perdido colado no fundo
entre as frestas
por onde escapa a poeira
do tempo perdido

Gavetas!
Meu tempo perdido na sombra que guardas
quando fechada em ti mesma
escondes meus ou teus segredos
que o tempo diluiu em farelos de madeira

tempo perdido
do que antes era eu
sem as dobras que me esmagam
e me fecham ao olhar de quem me espreita

tempo perdido
sem as alças e seus grampos
para atar-me e não perder-me
como papéis manuscritos
imprestáveis portadores de desejos
inconfessáveis

arrumar gavetas vagar no tempo
entre sombras e fantasmas?

arrumar gavetas para que?
resgatar que tempo?
o que está perdido?
Gavetas para sempre abertas
cheias de lápis ligas tesouras
lupas fita adesiva grampeadores
tubos de cola marcadores de texto

Gavetas que me olham insistentes
sugerindo para elas
de volta meus segredos
em papéis amordaçados e silêncios.

(Aurora da Graça, 2007)

26 abril 2007

Pesquei do blog "Pérolas da Rainha"

(Flávio-Shiró, 1984)

O chão da casa era de madeira
não havia tapetes
apenas o chão de madeira
o chão que cantava enquanto se caminhava sob ele
queixava-se aqui e ali e
amparava corajosamente os passos daquelas mulheres
vez por outra uma delas deitava no chão frio para esfriar o calor do corpo
deitavam e ali dormiam
deixavam seus sonhos entranhados na madeira
a casa emanava sonhos
o cheiro e névoa da maresia
cobria a casa como um cobertor.
(Alba Regina)

23 abril 2007

SÃO JOAO DEL REI

Como é agradável andar nessas ruas!
VARAL DO CORAÇÃO

Estirada no varal do coração
escorre o que não digo
ou sinto
a palavra
paz.
(Aurora da Graça)

18 abril 2007

Juliette Binoche interpreta Maria Madalena no filme que estréia nesta semana : MARIA

29 março 2007

(Claudia Cardinale e Richard Berry - cena do filme 588, Rue Paradis)


Frase de Walter Benjamin (filósofo):

A pior droga é o eu, que tomamos quando estamos sozinhos.

27 março 2007

RAMBLAS

Andas
pelas ramblas
em Madri.

Nesta ilha
cavo brechas
escondo
o vazio
e
me salvo.
VIGÍLIA
Enquanto dormes
tua alma vagueia
engana teu sono
estremece tuas entranhas
deságua em tua boca
e move
o insuportável.
MESOPOTÂMIA
Foi-se o tempo
em que Iraque
era apenas terra
entre rios.

15 março 2007

(desenho de Jeusus Santos, São Luís, MA)

Nomeio-te em segredo
e não te digo
retenho-te nos olhos
e tudo acende
cicias-me ao ouvido
e alvoroçada
recolho-te na boca
e tudo queima.

Ardo sozinha
a mão convulsionada
a desenhar-te em mim.

(Maria Aurora Carvalho Homem, Portugal)

16 fevereiro 2007


Esculpo a página a lápis

e um cheiro de bosque

então me aparece.

Que a poesia é feita de romãs

daquilo que é eterno

e de tudo que apodrece.


(Neide Archanjo, Todas as horas e antes, p. 176)

15 fevereiro 2007

by tarcrb


PEDIDO

Grande força etérea
que habitas os corações
de humanos e de anjos
responde ao meu clamor

nos caminhos mais secretos
solitária persigo Teus labirintos
ao longo dos dias mansos
em que esmoreço e espero

Em que tardes e poentes
terei paz e noites calmas
desejo de ser menina
pés descalços sem feridas
alma comprometida
com Tua Luz

Enche-me de teus silêncios
de Teu rastro e claridão
vestígios de Tua presença
que recusa me invadir
ensina-me
Teus encantos
Teus recantos
Teus lugares escondidos
para largar tantos sonhos
marcados de insensatez

Guia-me
entrega-me
consolida-me
constrói-me
invulnerável
comedida e santa.
(Aurora da Graça, 2007)




Abraça-me
arranca-me
das sombras violáceas
onde sobrevivo
com amarras

Acolhe-me
escolhe-me
para povoar teus sonhos
e neles reencontrar
os eflúvios e os fulgores das manhãs
mesmo que as tardes mascarem sua claridade
e as noites escondam para mim
os teus segredos.

(Aurora da Graça, 2007)

07 fevereiro 2007

DESCUIDO



Pelas paredes como lágrimas
a chuva inesperada se derrama
sem aviso
e transborda
pelos meus olhos ressecados
de mágoas e desejos

Pelas paredes como lágrimas
a chuva inesperada entrega-se
à compaixão dos que atônitos
miram suas gotas opacas
frágeis bolhas líquidas
contidos flagelos
de todas as paixões excluídas.
(Aurora da Graça, 2007)

03 fevereiro 2007

POEMA ANTIGO

Sofá de Freud, S.


DESTA VIDA REVELADA

Que faço deste grito e deste trapo
que faço desta mágoa feita nuvem
que faço deste passo sem trapaça
que faço deste canto intimidado
que faço desta dor se vendo festa
que faço desta vida revelada

que faço deste sonho represado
que faço deste parco sofrimento
que faço do quebrado monumento
que faço dos pedaços destes braços
que faço do vazio – novo espaço
que faço dos vestígios – chão sem praça
que faço – Santo Deus – deste mormaço
que faço do meu súbito embaraço
que faço – moribundo ou estilhaço

que faço da esperança em muitas cores
que faço do arco-íris destes laços
que faço deste mundo renascido
que faço – boquiaberta deste encanto

que faço do penhor deste momento
que faço desta paz – barco sem pressa
que faço repousada dos cansaços
que faço deste cais de mil embarques
que faço do punhal que já não fere
a alma esgarçada e aos pedaços
que faço do conflito desfraldado
que faço desta força posta a prova

que faço da armadura sem fivelas
que faço do porão escancarado
que faço do brincar, do faz de conta
que faço do pileque de ideais
que faço da vidraça ameaçada
que faço da urdida tessitura
que faço do amor obcecado

que faço da criança despertada
no meu peito recoberto de heresias
que faço do meu medo libertado
que faço – capataz e operário
da profunda controvérsia deste sonho

que faço desta oblíqua direção
com desvio siga reto e contramão
que faço desta nova criatura
perdida ainda nos meandros da loucura
que faço pelo menos da ternura
que escondi na secura tão maldita
que faço desta flor despetalada
ao contato inevitável do aguaceiro
que faço destes galhos florescendo
frágil tronco se dobrando ao vento
que faço desta aurora me chegando
que faço desta entranha sem bainha
que faço da iniciação de mim
que faço?

(Aurora da Graça, 1978)

31 janeiro 2007

"O Poeta na Rua" - de António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a amora indecisa demore

Não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração"

29 janeiro 2007

De novo, na ilha

"Novalis, poeta do primeiro romantismo alemão dizia que a beleza é o véu que oculta o caos. A vida é a tensão entre o mágico e o miserável". (Marcia Tiburi)

20 janeiro 2007

FINAL DE FÉRIAS

Andréa Almeida
Logo estarei de volta ao meu teclado e poderei postar aqui com mais vagar. Hoje, chez Andréa, em SP.

16 outubro 2006

Pequeno oratório do poeta para o anjo

(Foto capturada em um blog)
Era musa
e parecia ser Anjo.
Era musa.
....
Naquela tarde de maio
(ou era junho?)
o Anjo
água escorrendo natural e pura
postou-se à minha frente sorrindo.
E ninguém me ouviria
mesmo se eu gritasse.
....
Era candeia
e parecia ser o lume.
Era a candeia.
...
Nomeio-o
Alma
adequado ao clarão
que traz consigo.
...
Nem distraído
nem remoto
este Anjo
apenas hesitante
entre o bem e o mal
como se um e outro
ele não fora
e assim desapercebido
ora luz ora sombra
passasse por mim.
Em contrapontos.
...
Era quimera
e parecia ser o amor.
Era quimera.
...
Graça flutuante
figurava estar sentado.
A cabeça era magra
coberta de cachos
junquilhos
de onde o sol jorrava.
As asas
mantidas fechadas
tocavam o chão
longas emplumadas
o corpo intangível.
...
Seus olhos
castanhoverdecinzadourados
escarlates me olhavam
como se fossem
desde sempre
a límpida palavra.
Era belo
e assim se apresentava.
...
Era o caule
e parecia ser a flor
Era o caule.
...
Veste-se de blue
e um fio transparente
costura-lhe
asas e costas.
...
Quer ser apenas
azul e belo
como é a paixão.
...
Era flexa
e parecia ser alvo.
Era flexa.
...
O que quer
não me confessa
apenas deita
sobre o poema
e afaga as vestes.
Depois
muito depois
enrolando os caracóis
chora a pátria oculta
hemisférios
alguma tarde de amoras
melodia
perdida na memória.
Que Anjo é este
e a que vem?
...
Era a Beleza
e parecia ser a Beleza.
Era a Beleza.
...
Filho pródigo
abandonou a casa.
De seus vestígios de musa
de seus lampejos de Anjo
brotaram todas as lágrimas.
A dor
incrustada na curva da porta
esperou por muito tempo
a volta.
Depois no rubi deste coração
escreveu seu nome.
[Neide Archanjo, p. 111-121]

Leituras recentes

[ Desenho: Fernando Chuí & Marcia Tiburi]
ESTAR SOZINHA NÃO É SOLIDÃO
Quem tem medo de ficar só não se dá a chance de descobrir as delícias de um encontro consigo mesma.

MARCIA TIBURI

Fundei há anos o MDS, Movimento em Defesa da Solidão, com o objetivo de tornar o "estar só" um direito humano. Eu, que gosto tanto de ficar sozinha, imaginei que a minha demanda encontraria eco em um mundo onde estar junto é sempre possível, nem que seja virtualmente. O MDS tem um líder e um membro, eu mesma. Não aceita parceiros, mas respeita apoiadores e simpatizantes, que podem fundar seus movimentos desde que não queiram se reunir ao meu. Ajudam se mantendo longe. O MDS não presta serviços nem publica manifestos, não pode promover um Disk-Solidão, um telefonema estragaria a sua revolução. Seu lema é até bem antipático: "Me deixa!" Faço passeatas diárias com minha bandeira transparente: o MDS tem que ser invisível, pois quanto mais se mostra mais se contradiz. (Vou parar de falar antes que se espalhe a notícia, acabando com a luta pelo "estar só é bom demais".)...
...Mas ainda estou mais para o Zaratustra, de Nietzsche, que se retirava para as montanhas para isolar-se e voltava para contar as novidades. "Estar junto" sem temperar com "estar só" é tão ruim quanto "estar só" sem saber o que é "estar junto".
[claudia.abril.com.br/edicoes/530/aberto/familia_filhos/conteudo_100610.shtml]
As coisas cheias de seu oco. Quando o oco girava era o tempo que se consumia em espiral. (Tiburi, M. A mulher de costas. p. 18) A viagem para o muito longe desce por dentro da pele. (__ p. 30) ...porque a verdade é um afloramento, mais do que uma pele que se arranca. (__. p. 53).
_______________________________________________________________
O teu corpo em minhas mãos - I
Hoje
olhei tua nuca
como se ali
não houvesse depositado
todos os beijos
que incandescentes
ainda resplandecem!

Neide Archanjo
(Todas as horas e antes, p. 45)

Conto meus poemas
como um avarento conta
suas moedas.
Há um comércio entre o poeta
e a folha a ser lavrada.
Porque custa muito um poema.
Cada palavra é o rosto de Deus
e o poeta um vazio ajoelhado.


Neide Archanjo
(Todas as horas e antes, p. 175)

Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.
Por isso para ti
não serei a pele
__ poro a poro teu alumbramento __
serei apenas a cicatriz.
Perfeita.


Neide Archanjo
(Todas as horas e antes, p. 167)


02 setembro 2006

VIVENDO SETEMBRO

Eu meu grito
entonteço a primavera
eu meu trapo
limpo o sal desta ferida
eu minha mágoa
me navego a revelia
eu meu passo
recupero meu espaço

dor e festa se entrelaçam
no meu canto
e do sonho me liberto
sem espanto.

(Setembro 1977)